
Reproduzimos e difundimos o texto da camarada A. :
Enquanto o mundo assiste, estarrecido, aos recordes anuais de gastos militares – ultrapassando os 2,24 trilhões de dólares em 2022, segundo o SIPRI, com alta real de 3,7% –, o que vemos é a face mais crua do capital em sua fase terminal. Longe de qualquer necessidade de defesa legítima, essa escalada belicista, acelerada pela guerra na Ucrânia e pelas tensões no Oriente Médio, serve apenas para escorar um sistema em frangalhos. A militarização não é resposta a ameaças externas: é a válvula de escape para crises de superacumulação. Tanques, drones e mísseis são a forma mais violenta de escoar o excesso de capital que não consegue mais se reproduzir na esfera produtiva, desviando a fúria da classe trabalhadora para inimigos imaginários – enquanto o verdadeiro inimigo, o Estado corporativo, segue armado até os dentes.
Por trás de cada contrato bilionário de blindados ou sistemas antiaéreos, há uma teia de sangue e lucro: as gigantes da indústria bélica – Lockheed Martin, Raytheon, BAE Systems – tiveram seus lucros aumentados em mais de 25% no último ano, ao mesmo tempo que cortaram impostos e receberam subsídios estatais. O Estado, longe de ser um árbitro neutro, atua como o maior gestor de negócios da morte, garantindo que a “segurança nacional” seja um eufemismo para o assalto ao orçamento público. Enquanto hospitais fecham, moradias populares são sucateadas e a fome avança, o Banco Central Europeu e o Pentágono encontram verba para porta-aviões e ogivas. Não é defesa: é a lógica do capital vampirizando cada centavo do trabalho social para perpetuar sua dominação através do terror institucionalizado.
Mas a militarização mundial não corrói apenas nossos bolsos – ela estupra a própria possibilidade de vida comunitária. Cada soldado treinado para matar é um companheiro arrancado de suas redes de afeto; cada base militar instalada é um território roubado da agricultura camponesa ou dos biomas, como vemos na expansão da OTAN sobre reservas naturais na Romênia e na Polônia. Os dados são estarrecedores: o setor militar é responsável por cerca de 5,5% das emissões globais de gases de efeito estufa, mais que a aviação civil e o transporte marítimo somados. Exércitos não defendem o planeta: eles o preparam para a aniquilação. A chamada “paz armada” é a maior mentira do século XXI, pois sob o manto da dissuasão, o que se pratica é a normalização da violência como política – e a violência, como bem sabemos, sempre cai primeiro sobre os ombros dos mais pobres, negros, indígenas e periféricos.
Diante disso, a resposta anarquista não pode ser a reforma tímida ou o apelo à “desmilitarização negociada” dentro das câmaras do poder. A alternativa é a desobediência radical: recusa ao serviço militar, sabotagem às cadeias logísticas da morte, ocupação de fábricas de armamentos e construção de redes horizontais de autodefesa popular. Não queremos mais orçamentos participativos para polícias – queremos a extinção de toda hierarquia armada que se arvora em nos proteger. Que venham as assembleias de bairro, os mutirões de cuidado mútuo, as milícias populares desarmadas e organizadas por afinidade. Enquanto o capital e o Estado dançarem a valsa dos mísseis, nós cavaremos trincheiras na solidariedade – porque a única guerra justa é a que destruir, de uma vez por todas, a lógica de que a vida se mede pela capacidade de matar.
A., uma anarquista filiada à FACA.
















