Chão de fábrica, terreno de luta!

Companheiros e companheiras, é no chão da fábrica, no escritório, no canteiro de obras, no mercado, no aplicativo e em cada canto onde a gente vende nossa força por um salário miserável que o sistema mostra sua cara mais cruel. É ali, diante da máquina e do patrão, que sentimos na pele o suor da exploração. O capitalismo não é uma abstração distante; ele se materializa na jornada exaustiva, no assédio do chefe, na ameaça constante da demissão e no lucro que some nos bolsos de quem não produz porra nenhuma. Por isso, o local de trabalho é a nossa principal trincheira de luta. É onde as engrenagens giram e é exatamente ali que devemos enfiar o pé na roda!

Durante décadas, nos venderam a ilusão de que a solução viria de fora: de um político bonzinho, de uma lei trabalhista ou de um sindicato pelegueiro que negocia nossos direitos por migalhas. Mas a verdade é que ninguém vai nos libertar além de nós mesmos. A organização no local de trabalho é uma das armas mais poderosas que temos. É construindo comissões, núcleos de base e coletivos por setor que conseguimos enxergar quem realmente está ao nosso lado e quem está vendido ao sistema. É no dia a dia, dividindo o intervalo e a raiva, que forjamos a confiança necessária para agir. Uma paralisação relâmpago, uma operação-tartaruga, uma sabotagem estratégica na produção ou simplesmente a recusa coletiva a aceitar uma ordem abusiva — tudo isso nasce da organização invisível mas sólida que construímos entre os nossos.

Não se enganem: o patrão treme quando percebe que os trabalhadores estão conversando entre si sem a supervisão dele. Ele sabe que a união da classe é o prenúncio do fim dos seus lucros. Por isso, a FACA chama todos os trabalhadores e trabalhadoras a abandonarem o individualismo e a passividade que o sistema nos ensina. Vamos ocupar os espaços de trabalho com a nossa consciência de classe! Vamos transformar o cafezinho e a roda de fumo em células de resistência. Vamos nos apropriar dos saberes da produção para usá-los contra quem nos explora. A fábrica não é dele, é nossa! O lucro que ele acumula foi suor nosso, e está na hora de reivindicarmos não apenas migalhas, mas o controle de tudo o que produzimos.

Que este ano nos encontre mais organizados dentro de cada local de trabalho! A Federação Anarquista Capixaba (FACA) está ao lado de quem constrói a luta por dentro, enfrentando o chicote invisível do patrão e a burocracia sindical vendida. Se você está cansado de chegar em casa exausto e ver seu trabalho enriquecer um canalha, chega junto! Vamos fortalecer as comissões, articular as categorias e preparar o terreno para a greve geral que sacudirá esse sistema. A revolução não começa nos palanques, começa no chão da fábrica. Organize-se com seus iguais, confie na sua classe e prepare a sabotagem. O poder está nas nossas mãos, basta a gente se unir para tomar o que é nosso!

Federação Anarquista Capixaba (FACA)

Filiada à União Anarquista Federalista

A dupla greve de Genebra*

Por Mikail Bakunin

Os burgueses provocam-nos. Esforçam-se para levar-nos ao desespero por todos os meios, pensando, não sem muita razão, que seria muito bom para seus interesses forçar-nos a travar batalha com eles hoje.

Caluniam-nos e insultam-nos em seus jornais; desnaturam, travestem e inventam fatos, contando com as simpatias de seu público, que os perdoará tudo, desde os burgueses, os patrões sejam inocentados e os trabalhadores caluniados. Seguros dessa impunidade e dessa simpatia, o Journal de Genève, sobretudo, o devoto mentiroso, supera-se em mentiras.

Eles não se contentam em provocar-nos e insultar-nos por meio de seus escritos; impacientes para fazerem-nos perder a paciência, recorrem às vias de fato. Seus tristes filhos, essa juventude dourada cujo ócio corrompido e vergonhoso detesta o trabalho e os trabalhadores; esses acadêmicos, doutos em teologia e ignorantes da ciência, esses liberais da rica burguesia, vão às ruas, como no ano passado, e amontoam-se nos cafés, armados de revólveres mal dissimulados em seus bolsos. Dir-se-ia que eles temem um ataque por parte dos operários e que se creem forçados a afastá-los.

Eles creem seriamente nisso? Não, absolutamente não, mas simulam crer para ter o pretexto de armar-se e um motivo plausível para atacar. Sim, para atacar-nos, pois, na terça-feira passada, ousaram espancar alguns de nossos companheiros que, provocados por todos os insultos, responderam por verdades bastante desagradáveis, sem dúvida, para ouvidos tão delicados quanto os deles, mas que nem sequer encostaram as mãos neles. Permitiram-se detê-los e maltratá-los durante algumas horas, até que uma comissão enviada pela Associação Internacional à Prefeitura foi buscá-los.

O que pensam esses burgueses? Querem realmente forçar-nos a ir para as ruas de armas em punho? Sim, eles o querem. E por que o desejam? A razão é bem simples: desejam matar a Internacional.

Basta ler os jornais burgueses, isto é, quase todos os jornais de todos os países, para persuadir-se de que, se há, hoje, uma coisa que, mais do que qualquer outra, é um objeto de temor e horror para a burguesia na Europa, é a Associação Internacional dos Trabalhadores. E, como devemos ser justos, antes de tudo, justos inclusive em relação aos nossos adversários mais encarniçados, devemos reconhecer que a burguesia tem mil vezes razão para abominar e temer essa formidável associação.

Toda a prosperidade burguesa, sabemo-lo, como prosperidade exclusiva, está fundada sobre a miséria e sobre o trabalho forçado do povo, forçado não pela lei, mas pela fome. Essa escravidão do trabalho denomina-se, é verdade, nos jornais liberais tais como o Journal de Genèbve, a liberdade do trabalho. Mas essa estranha liberdade é comparável àquela de um homem desarmado e nu, que se o entregaria à mercê de um outro armado dos pés à cabeça. É a liberdade de fazer-se esmagar, abater. – Tal é a liberdade burguesa. Compreende-se que os burgueses adorem-na e que os trabalhadores não a suportem absolutamente; pois essa liberdade é para os burgueses a riqueza, e para os trabalhadores a miséria.

Os trabalhadores estão cansados de serem escravos. Não menos que os burgueses, mais do que os burgueses, eles amam a liberdade, porque compreendem muito bem, sabem por uma dolorosa experiência que sem liberdade não pode haver para o homem dignidade nem prosperidade. Mas não compreendem a liberdade senão na igualdade; porque a liberdade na desigualdade é o privilégio, quer dizer, a fruição de alguns fundada no sofrimento de todos. – Eles querem a igualdade política e econômica simultaneamente porque a igualdade política sem a igualdade econômica é uma ficção, uma enganação, uma mentira, e eles não querem mais mentiras. Os trabalhadores tendem, então, necessariamente, a uma transformação radical da sociedade que deve ter por resultado a abolição das classes do ponto de vista econômico tanto quanto político, e a uma organização na qual todos os homens nascerão, desenvolver-se-ão, instruir-se-ão, trabalharão e fruirão dos bens da vida em condições iguais para todos. Tal é o desejo da justiça, tal é, também, o objetivo final da Associação Internacional dos Trabalhadores.

Mas como ir do abismo de ignorância, de miséria e de escravidão na qual os proletários dos campos e das cidades estão hoje mergulhados, a esse paraíso, a essa realização da justiça e da humanidade sobre a terra? Para isso, os trabalhadores só têm um meio: a associação. Pela associação, eles instruem-se, informam-se mutuamente, e põem fim, por seus próprios esforços, a essa fatal ignorância que é uma das principais causas de sua escravidão. Pela associação, eles aprendem a ajudar-se, conhecer-se, apoiar-se um no outro, e acabarão por criar uma força mais formidável do que aquela de todos os capitais burgueses e de todos os poderes políticos reunidos.

A Associação tornou-se, portanto, a palavra de ordem dos trabalhadores de todas as indústrias e de todos os países, nesses vinte últimos anos sobretudo, e toda a Europa encontrou-se munida, como por encantamento, de uma multidão de sociedades operárias de todos os tipos. É incontestavelmente o fato mais importante e ao mesmo tempo mais consolador de nossa época – o sinal infalível da emancipação próxima e completa do trabalho e dos trabalhadores na Europa.

Mas a experiência desses mesmos vinte anos provou que as associações isoladas eram aproximadamente tão impotentes quanto os trabalhadores isolados, e que mesmo a federação de todas as associações operárias de um único país não bastaria para criar uma força capaz de lutar contra a coalizão internacional de todos os capitais exploradores do trabalho na Europa; a ciência econômica demonstrou, por outro lado, que a questão da emancipação do trabalho não é absolutamente uma questão nacional; que nenhum país, por mais rico, por mais poderoso e por mais importante que ele seja, não pode, sem arruinar-se e sem condenar todos os seus habitantes à miséria, empreender qualquer transformação radical das relações do capital e do trabalho se essa transformação não se faz igualmente, e ao mesmo tempo, ao menos em uma grande parte dos países mais industriosos da Europa, e que, por consequência, a questão da libertação dos trabalhadores do jugo do capital e de seus representantes, os burgueses, é uma questão eminentemente internacional. Disso resulta que a solução só é possível no terreno da internacionalidade.

Operários inteligentes, alemães, ingleses, belgas, franceses e suíços, fundadores de nossa bela instituição, compreenderam-no. Eles também compreenderam que, para realizar essa magnífica obra da emancipação internacional do trabalho, os trabalhadores da Europa, explorados pelos burgueses e esmagados pelos Estados, só deviam contar com eles próprios. Assim foi criada a grande Associação Internacional dos Trabalhadores.

Sim, grande e formidável, verdadeiramente! Ela tem apenas quatro anos e meio de existência e já abrange várias centenas de milhares de aderentes disseminados e estreitamente aliados em quase todos os países da Europa e também da América. Um pensamento e uma empresa que produzem em tão pouco tempo tais frutos, só pode ser um pensamento salutar, uma empresa legítima.

Trata-se de um pensamento secreto, de uma conspiração? Sem dúvida algum. Se a Internacional conspira, ela o faz às claras e diz a quem quiser ouvi-la. E o que ela diz, o que pede? A justiça, nada além da mais estrita justiça e o direito da humanidade, e a obrigação do trabalho para todos. Se à sociedade burguesa atual esse pensamento parece subversivo e abjeto, tanto pior para essa sociedade.

Trata-se de uma empresa revolucionária? Sim e não. Ela é revolucionária no sentido que quer substituir uma sociedade fundada na iniquidade, na exploração da imensa maioria dos homens por uma minoria opressiva, no privilégio, no ócio, e em uma autoridade protetora de todas essas belas coisas, por uma sociedade fundada nessa justiça igual para todos e na liberdade de todos. Ela quer, em resumo, uma organização econômica, política e social, na qual todo ser humano, sem prejuízo para suas particularidades naturais e individuais, encontre uma igual possibilidade de desenvolver-se, instruir-se, pensar, trabalhar, agir e desfrutar a vida como homem. Sim, ela quer isso, e, uma vez mais, se o que ela quer é incompatível com a atual organização da sociedade, tanto pior para essa sociedade.

A Associação Internacional é revolucionária no sentido das barricadas e de uma derrubada violenta da ordem política atualmente existente na Europa? Não: ela ocupa-se muito pouco dessa política, e, inclusive, não se ocupa absolutamente disso. Assim, os revolucionários burgueses querem-lhe muito mal pela indiferença que ela testemunha em relação às suas aspirações e a todos os seus projetos. Se a Internacional não tivesse compreendido desde há muito que toda política burguesa, por mais vermelha e revolucionária que pareça, tende não à emancipação dos trabalhadores, mas à consolidação de sua escravidão, o papel lamentável desempenhado neste momento pelos republicanos e, inclusive, pelos socialistas burgueses na Espanha bastaria para abrir-lhe os olhos.

A Associação Internacional dos Trabalhadores, fazendo completa abstração de todas as intrigas políticas atualmente, só conhece, neste momento, uma única política: aquela de sua propaganda, de sua extensão e de sua organização. No dia em que a grande maioria dos trabalhadores da América e da Europa tiver ingressado e estiver bem organizada em seu seio, não haverá mais necessidade de revolução; sem violência a justiça será feita. E, então, se houver cabeças quebradas, é porque os burgueses assim o quiseram.

Mais alguns anos de desenvolvimento pacífico e a Associação Internacional tornar-se-á uma força contra a qual será ridículo querer lutar. Eis o que os burgueses compreendem demasiado bem, e eis por que eles hoje provocam-nos para a luta. Hoje, eles esperam ainda poder afastar-nos, mas sabem que amanhã será demasiado tarde. Eles querem forçar-nos a travar batalha com eles agora.

Cairemos nessa armadilha grosseira, operários? Não. Faríamos muito prazer aos burgueses e arruinaríamos a nossa causa por muito tempo. Temos conosco a justiça, o direito, mas nossa força ainda não é suficiente para lutar. Comprimamos, pois, nossa indignação em nossos corações, permaneçamos firmes, inquebrantáveis, mas calmos, quaisquer que sejam as provocações dos jovens arrogantes e impertinentes da burguesia. Suportemos ainda; não estamos habituados a sofrer? Soframos, mas não esqueçamos nada.

E, enquanto aguardamos, prossigamos, redobremos, ampliemos cada vez mais o trabalho de nossa propaganda. É preciso que os trabalhadores de todos os países, os camponeses bem como os operários das fábricas e das cidades, saibam o que quer a Associação Internacional, e compreenderam que, fora de seu triunfo não há para eles qualquer outro meio de emancipação sério; que a Associação Internacional é a pátria de todos os trabalhadores oprimidos, o único refúgio contra a exploração dos burgueses, a única força capaz de derrubar o poder insolente dos burgueses.

Organizemo-nos, ampliemos a nossa Associação, mas, ao mesmo tempo, não esqueçamos de consolidá-la a fim de que nossa solidariedade, que é toda a nossa força, torne-se a cada dia mais real. Sejamos cada vez mais solidários no estudo, no trabalho, na ação pública, na vida. Associemo-nos em empresas comuns para fazer nossa existência um pouco mais suportável e menos difícil; formemos em toda parte, e tanto quanto nos seja possível, essas sociedades de consumo, de crédito mutual e de produção, que, conquanto incapazes de emancipar-nos de uma maneira suficiente e séria nas condições econômicas atuais, habituam os operários à prática dos negócios e preparam germes preciosos para a organização do futuro.

Esse futuro está próximo. Que a unidade de escravidão e miséria que hoje abraça os trabalhadores do mundo inteiro transforme-se, para todos nós, em unidade de pensamento e vontade, de objetivo e ação – e a hora da libertação e da justiça para todos, a hora da reivindicação e da plena satisfação soará.

* Este texto encerra a sequência de escritos de Bakunin publicados pela FACA entre os meses de Fevereiro e Março de 2026.

Discurso do cidadão Bakunin a uma Assembleia Pública de socialistas estrangeiros

Esta imagem não tem texto alternativo. O nome do ficheiro é: anabola.png

Após ter dito que a Assembleia não se reunira apenas para prestar homenagem à memória do bravo republicano Baudin, assassinado pelos bandoleiros de dezembro, mas ainda para exprimir seu devotamento aos princípios da República democrática e social, o cidadão Bakunin exprimiu-se nesses termos:

Somos socialistas, isto é, desejamos todos:

A igualdade das condições políticas, econômicas e sociais para todos;

A igualdade dos meios de sustento, de educação, de instrução para todas as crianças dos dois sexos – e aquela dos meios de trabalho para todos os homens viris e para as mulheres.

Queremos a justiça social e a liberdade real de cada ser humano pela solidariedade de todos;

Queremos a Fraternidade de todos os seres humanos sobre a terra, sem distinção de nações, cor e raça.

Queremos que a paz reine no mundo, fundada na razão esclarecida pela ciência, fundada na justiça humana, isto é, na liberdade, na igualdade e na universal fraternidade. Mas quem quer o fim, deve querer os meios. Devemos, pois, querer a abolição de todas as fronteiras políticas criadas pela violência dos Estados. Queremos a supressão dos Estados, seu desaparecimento na organização livre e universal da sociedade humana.

Quem diz Estado, diz fortaleza, diz separação violenta de uma porção da humanidade de todas as outras porções igualmente aprisionadas em outros Estados; diz rivalidade, concorrência e guerra perpétua dos Estados; diz conquista, espoliação e massacre patriótico e glorioso no exterior e no interior: opressão e exploração legalizada e regulada do trabalho popular, em proveito de uma minoria dominante.

A paixão correspondente a essa dupla manifestação dos Estados chama-se patriotismo. Não queremos mais patriotismo, pois queremos a justiça, o direito humano e a fraternidade humana.

Quem diz Estado, diz privilégio. O privilégio por excelência que serve de fundamento a todas as outras injustiças políticas e sociais é a propriedade individualmente hereditária.

Essa propriedade tem por elementos, de início, seu ponto de partida, sua base histórica e real: a conquista, um fato sangrento e brutal, um delito contra a humanidade e contra a justiça, uma espoliação ou um massacre qualquer e, na maioria das vezes, ambos simultaneamente; em seguida, a consagração do ato violento realizado pela religião – a divindade tendo tomado em todos os tempos o partido dos mais hábeis e dos mais fortes; dessa consagração resultou o direito jurídico, a injustiça petrificada, sistematizada e legalizada. O conjunto de tudo isso se chama – Estado político.

Queremos, portanto, a abolição desse Estado, porque ele não tem outra missão senão proteger a propriedade individual; e nós queremos a abolição da propriedade individual porque enquanto ela existir, haverá necessariamente desigualdade. A sociedade permanecerá partilhada em duas porções, das quais uma – a minoria dominante e exploradora – será composta de todos os felizes da terra, nascendo na fartura, graças a essa lei de herança, e recebendo da sociedade a educação, a instrução e todos os meios materiais e intelectuais, políticos e sociais para continuar essa obra de exploração. A outra porção abarcará as massas populares, todos esses milhões de trabalhadores que não herdam senão a miséria e a ignorância forçada de seus pais, e que se verão eternamente condenadas a um trabalho excessivo que, mal lhes dando do que viver, aumentará o bem-estar, o luxo e a civilização dos burgueses.

No lugar da propriedade individual, queremos a propriedade coletiva, e no lugar dos Estados, a organização cada vez mais universal da sociedade humana, pela federação livre das associações produtivas, industriais e agrícolas. No lugar de uma organização social fundada no privilégio e na política dos Estados, queremos uma organização que não terá outra base senão o trabalho, senão a justa e fraternal repartição de todos os produtos do trabalho.

Em seguida, o cidadão Bakunin fala da Associação Internacional dos Trabalhadores.

Essa Associação, nascida há apenas quatro anos, já se tornou uma grande força, reconhecida como tal por todos os políticos da Europa. Ao formar-se, ela havia propositalmente eliminado de seu programa todas as questões políticas, deixando a política – essa manifestação da vida dos Estados, aos privilegiados dos Estados – aos burgueses. Quanto a ela, colocou-se, de início, um único objetivo: a Emancipação dos trabalhadores de todos os países do jugo do capital.

Uma longa e dura experiência havia demonstrado aos fundadores da Associação que esse objetivo não podia ser alcançado senão pelos esforços combinados, pela aliança e pela solidariedade dos trabalhadores de todos os países; a ciência econômica veio, por sua vez, confirmá-los nessa convicção, demonstrando-lhes a universalidade da questão social, que nenhum país, por mais avançado e mais extenso que seja, poderia resolver sozinho, porque enquanto a concorrência dos Estados existir, haverá concorrência necessária e permanente entre as classes e os indivíduos; mas essa concorrência é a guerra, é a exploração e a opressão mútuas.

A Associação Internacional, consciente e voluntariamente estranha a toda política, deu, portanto, um único passo, fez um único ato com vistas à grande questão da emancipação de todos os trabalhadores no mundo. Mas esse ato e esse passo são imensos; eles contêm toda a revolução.

Ao proclamar o direito dos trabalhadores à exploração solidária de todos os capitais produzidos pelo trabalho acumulado das gerações passadas, ela proclamou a destituição, não do capital, mas da monopolização do capital – a destituição da propriedade individual, do direito de herança, isto é, do direito hereditário da exploração do trabalho alheio – ela proclamou a propriedade coletiva.

Ao proclamar a solidariedade dos trabalhadores de todos os países, ela atacou as fronteiras e começou a destruição dos Estados. Ela matou o patriotismo, essa paixão, essa virtude interesseira dos burgueses.

Pelo próprio fato de sua organização e de sua existência, ela aboliu, renegou a existência de todas essas inumeráveis pátrias que, do ponto de vista da política aristotélica e burguesa, dividem ainda hoje a Europa e o mundo, de sorte que, para os trabalhadores, só restam agora dois países estrangeiros no mundo, duas pátrias que, divididas por seus princípios, suas aspirações e seus interesses, logo se farão uma guerra mortal: uma chama-se capital, propriedade individual, monopólio, exploração, opressão – em resumo, reação; a outra, trabalho, direito humano, liberdade de todos pela igualdade de todos, justiça e fraternidade – a Revolução.

Não é isso, cidadãos, o que chamamos de questão social? Não é isso o princípio que deve assegurar o triunfo da república democrática e social?

Eis, após a condenação de toda política burguesa, a verdadeira, a única política da Associação Internacional dos Trabalhadores.

Assim, ao mesmo tempo que se declarou estranha à nossa política, essa grande associação realizou o mais importante ato e fato político de nossos dias. Ela inaugurou a política do povo: aquela da negação da propriedade individualmente hereditária e da destruição dos Estados.

Retorno a Baudin. Era um bravo cidadão. Morreu como só os heróis morrem, sem esperança de triunfo, mas fiel até ao último momento à sua fé. Ele foi buscar a morte após ter tentado em vão sublevar o povo contra os massacradores de dezembro.

Os operários não quiseram segui-lo. Eles erraram, tiveram razão? Pois bem, cidadãos, penso que eles erraram e acertaram simultaneamente.

Eles tiveram razão contra essa assembleia reacionária que Napoleão, por seu golpe de Estado, havia dissolvido. Pois não se deve falar sempre das vítimas de dezembro – falemos também daquelas de junho.

Aqui, sobretudo, no meio dessa assembleia completamente popular, não devemos esquecer essas vítimas da causa do povo, esses milhares de bravos operários que foram massacrados pelas guardas nacionais burguesas, porque reivindicaram o direito popular – os meios da vida e da liberdade popular. A ferocidade burguesa de junho preparou a ferocidade pretoriana de dezembro. Cavaignac foi o precursor de Napoleão.

Pois bem, essa assembleia nacional, que se chamava, então, assembleia constituinte, após os massacres de junho, acolheu o General Cavaignac como o salvador da civilização, isto é, da burguesia, como seu salvador; ela amaldiçoou e caluniou as vítimas e coroou de louros o carrasco. Depois de todas essas medidas, todas as leis que ela promulgou tiveram um único objetivo: aquele de destruir uma a uma todas as liberdades que o povo havia conquistado em fevereiro. Eis por que os operários, por sua vez, tiveram razão, mil vezes razão, de não se sublevar para a conservação dessa assembleia reacionária e burguesa tanto quanto para a república completamente reacionária e burguesa criada por essa assembleia.

Mas se os operários tiveram razão em relação a ela, eles erraram mil vezes em relação a eles próprios. Eles devem sublevar-se contra o tirano, não em nome da república burguesa, mas em nome da república democrática e social, em nome da vida, do pão e da liberdade populares. Pois não há mais monstruosa ilusão, nem mais monstruosa aliança do que aquela do povo dos trabalhadores com a ditadura, qualquer que seja, mas sobretudo com a ditadura militar.

Dezessete anos de opressão e aviltamento demonstraram essa verdade elementar ao povo. Ele não buscará mais sua salvação no poder de um charlatão coroado, nem de um criminoso feliz. Ele logo destruirá, espero-o, a força dos fuzis, das baionetas e do sabre. Mas os destruirá não para os burgueses, mas para ele próprio.

Nasce o Livro Livre: Um Ponto de Resistência Anarquista no Sul do Espírito Santo

A cidade de Cachoeiro de Itapemirim, berço de uma cultura muitas vezes aprisionada pelas elites, ganha um sopro de liberdade e resistência. A União Anarquista Federalista (UAF), em parceria com a Federação Anarquista Capixaba (FACA), lança o projeto Livro Livre: um ponto físico de troca de livros baseado no mais puro princípio do apoio mútuo. Aqui, não há moeda, não há patrão, não há catraca. Deixe um livro, leve outro. É um ato simples, mas profundamente subversivo em um mundo que tenta mercantilizar cada aspecto de nossas vidas e conhecimentos.

Este espaço é mais do que uma estante; é um marco territorial da cultura libertária na cidade. É um convite para que a classe trabalhadora, os estudantes, os artistas e todos os inconformados ocupem esse pedaço da cidade com ideias que o sistema quer ver esquecidas. Ao colocar em circulação livros sobre anarquismo, anticapitalismo, feminismo, ecologia social e história vista de baixo, estamos construindo as trincheiras ideológicas da nossa luta. Cada livro retirado é uma semente plantada; cada livro doado é um tijolo no muro da resistência popular.

Funciona pela solidariedade e pela confiança, valores que o capitalismo tenta destruir diariamente. Se você tem livros pegando poeira em casa, traga-os para ganharem vida nova nas mãos de outros combatentes. Se você busca conhecimento para entender o mundo e transformá-lo, venha buscar. Não se trata de caridade, mas de responsabilidade coletiva com a formação da nossa classe. O projeto Livro Livre vive pela comunidade e para a comunidade, sendo um exercício prático de autogestão e horizontalidade, mostrando que podemos organizar nossa cultura e nossa educação sem esperar permissão do Estado ou dos empresários.

Por isso, conclamamos todos os moradores de Cachoeiro e região: venham conhecer, participem, doem, levem, divulguem. Apoiem essa iniciativa que aquece nossos corações e mentes para a batalha das ideias. O futuro que queremos construir, sem exploração e sem opressão, passa também por gestos como esse. O Livro Livre é nosso, é de quem o fizer. Ocupe a cultura, liberte-se! Viva a UAF! Viva a FACA! Pelo apoio mútuo e pela revolução social!

União Anarquista Federalista – https://uafbr.noblogs.org/

Federação Anarquista Capixaba – https://federacaocapixaba.noblogs.org/

English version:

The “Free Book” is Born: A Point of Anarchist Resistance in the South of Espírito Santo, Brazil.

The city of Cachoeiro de Itapemirim, birthplace of a culture often imprisoned by the elites, gains a breath of freedom and resistance. The Anarchist Federalist Union (UAF), in partnership with the Capixaba Anarchist Federation (FACA), launches the Free Book project: a physical book exchange point based on the purest principle of mutual aid. Here, there is no currency, no boss, no turnstile. Leave a book, take another. It is a simple act, but profoundly subversive in a world that tries to commodify every aspect of our lives and knowledge.

This space is more than a bookshelf; it is a territorial landmark of libertarian culture in the city. It is an invitation for the working class, students, artists, and all nonconformists to occupy this piece of the city with ideas that the system wants to see forgotten. By circulating books on anarchism, anti-capitalism, feminism, social ecology, and history from below, we are building the ideological trenches of our struggle. Each book taken is a seed planted; each book donated is a brick in the wall of popular resistance.

It operates on solidarity and trust, values that capitalism tries to destroy daily. If you have books gathering dust at home, bring them so they can gain new life in the hands of other fighters. If you seek knowledge to understand the world and transform it, come and get them. This is not about charity, but about collective responsibility for the education of our class. The Free Book project lives by the community and for the community, being a practical exercise in self-management and horizontality, showing that we can organize our culture and our education without waiting for permission from the State or businessmen.

Therefore, we call upon all residents of Cachoeiro and the region: come and see, participate, donate, take, spread the word. Support this initiative that warms our hearts and minds for the battle of ideas. The future we want to build, without exploitation and without oppression, also involves gestures like this. The Free Book is ours, it belongs to those who make it happen. Occupy culture, free yourself! Long live the UAF! Long live the FACA! For mutual aid and social revolution!

União Anarquista Federalista – https://uafbr.noblogs.org/

Federação Anarquista Capixaba – https://federacaocapixaba.noblogs.org/