ATENDIMENTOS JURÍDICOS DE AGOSTO DE 2026

A Federação Anarquista Capixaba, comprometida com xs exploradxs e com o fortalecimento das lutas sociais no âmbito local, anuncia a realização de atendimentos jurídicos gratuitos nos dias 7 e 14 de agosto. Para assegurar um acolhimento qualificado e uma organização eficiente, todas as consultas serão realizadas exclusivamente mediante agendamento prévio, que deverá ser solicitado pelo endereço eletrônico fedca@riseup.net.

Reiteramos o convite para que todas as pessoas que necessitem desse suporte procurem a Federação, dando continuidade ao movimento de aproximação e confiança que já vem sendo construído coletivamente.

A FACA se reafirma, assim, não apenas como um espaço de acolhimento, mas como um instrumento político e combativo a serviço das pessoas oprimidas que ocupam, vivem e resistem no território atualmente dominado pelo estado do Espírito Santo.

Federação Anarquista Capixaba – FACA
Filiada à União Anarquista Federalista – UAF

Relatório de Atividades – Projeto “Livro Livre”

Período: Últimos seis meses

Apresentação

O Projeto Livro Livre é uma iniciativa da União Anarquista Federalista (UAF) e da Federação Anarquista Capixaba (FACA) de incentivo à leitura e disseminação da cultura anarquista, desenvolvida no território dominado pelo estado do Espírito Santo, na cidade de Cachoeiro de Itapemirim. Seu principal objetivo é ampliar o acesso da população aos livros, promovendo o compartilhamento de conhecimento, a formação de novos leitores e o fortalecimento da educação por meio da circulação gratuita de obras literárias, educativas e, sobretudo, anarquistas.

Desenvolvimento das Atividades

Durante os últimos seis meses, o projeto manteve suas atividades de forma contínua e organizada. O ponto de troca permaneceu disponível à comunidade, permitindo que qualquer pessoa pudesse deixar um livro e retirar outro gratuitamente, incentivando a economia colaborativa, o acesso à leitura e o apoio mútuo.

Observou-se uma participação crescente da população, com frequentes trocas de livros realizadas por estudantes, professores, famílias e demais moradores da região. O envolvimento da comunidade demonstra o reconhecimento da importância do projeto como instrumento de incentivo à educação e à cultura libertária.

Paralelamente à participação do público, mantivemos o compromisso de abastecer o projeto semanalmente. Foram realizadas reposições constantes do acervo com livros, fanzines e panfletos, garantindo diversidade de títulos e boas condições de uso. Além disso, foram distribuídos panfletos informativos para divulgar a iniciativa e ampliar o alcance do projeto junto à população.

Resultados Observados

Ao longo do semestre, destacam-se os seguintes resultados:

  • Participação ativa e contínua da comunidade nas trocas de livros;
  • Renovação semanal do acervo por meio da inserção de novos materiais;
  • Distribuição regular de panfletos de divulgação e conscientização;
  • Maior visibilidade do projeto na cidade em que ele está instalado;
  • Fortalecimento da cultura anarquista da leitura e do compartilhamento de conhecimento;
  • Incentivo ao reaproveitamento de livros e ao acesso gratuito à informação.

Considerações finais

Os resultados obtidos nos últimos seis meses demonstram que o Projeto Livro Livre vem cumprindo seu propósito social de incentivar a leitura e ampliar o acesso ao conhecimento acerca do anarquismo. A participação constante da população, aliada ao abastecimento semanal realizado pela equipe da UAF-FACA, tem garantido a continuidade e o fortalecimento da iniciativa.

A expectativa para os próximos meses é ampliar ainda mais o acervo disponível, fortalecer a divulgação do projeto e alcançar um número cada vez maior de participantes, consolidando esta ação como uma importante ferramenta de promoção do anarquismo.

União Anarquista Federalista – UAF e Federação Anarquista Capixaba – FACA.

ATENDIMENTOS JURÍDICOS DA FACA – 09/07/2026

A Federação Anarquista Capixaba divulga sua agenda de atendimentos jurídicos e sindicais da segunda semana de julho de 2026.

Todos os atendimentos serão realizados mediante agendamento no e-mail fedca@riseup.net.

09/07/2026: São José do Calçado /ES.

Reforçamos: os atendimentos se darão mediante prévio agendamento no e-mail fedca@riseup.net.

Pela transformação social!

Pelo socialismo libertário!

Federação Anarquista Capixaba – FACA

Federada à União Anarquista Federalista – UAF

ATENDIMENTOS JURÍDICOS DA FACA – 02/07/2026

A Federação Anarquista Capixaba divulga sua agenda de atendimentos jurídicos e sindicais do início do mês de julho de 2026.

Todos os atendimentos serão realizados mediante agendamento no e-mail fedca@riseup.net.

02/07/2026: Iconha/ES.

Reforçamos: os atendimentos se darão mediante prévio agendamento no e-mail fedca@riseup.net.

Pela transformação social!

Pelo socialismo libertário!

Federação Anarquista Capixaba – FACA

Federada à União Anarquista Federalista – UAF

O recrudescimento da barbárie

Reproduzimos e difundimos o texto da camarada A. :

Enquanto o mundo assiste, estarrecido, aos recordes anuais de gastos militares – ultrapassando os 2,24 trilhões de dólares em 2022, segundo o SIPRI, com alta real de 3,7% –, o que vemos é a face mais crua do capital em sua fase terminal. Longe de qualquer necessidade de defesa legítima, essa escalada belicista, acelerada pela guerra na Ucrânia e pelas tensões no Oriente Médio, serve apenas para escorar um sistema em frangalhos. A militarização não é resposta a ameaças externas: é a válvula de escape para crises de superacumulação. Tanques, drones e mísseis são a forma mais violenta de escoar o excesso de capital que não consegue mais se reproduzir na esfera produtiva, desviando a fúria da classe trabalhadora para inimigos imaginários – enquanto o verdadeiro inimigo, o Estado corporativo, segue armado até os dentes.

Por trás de cada contrato bilionário de blindados ou sistemas antiaéreos, há uma teia de sangue e lucro: as gigantes da indústria bélica – Lockheed Martin, Raytheon, BAE Systems – tiveram seus lucros aumentados em mais de 25% no último ano, ao mesmo tempo que cortaram impostos e receberam subsídios estatais. O Estado, longe de ser um árbitro neutro, atua como o maior gestor de negócios da morte, garantindo que a “segurança nacional” seja um eufemismo para o assalto ao orçamento público. Enquanto hospitais fecham, moradias populares são sucateadas e a fome avança, o Banco Central Europeu e o Pentágono encontram verba para porta-aviões e ogivas. Não é defesa: é a lógica do capital vampirizando cada centavo do trabalho social para perpetuar sua dominação através do terror institucionalizado.

Mas a militarização mundial não corrói apenas nossos bolsos – ela estupra a própria possibilidade de vida comunitária. Cada soldado treinado para matar é um companheiro arrancado de suas redes de afeto; cada base militar instalada é um território roubado da agricultura camponesa ou dos biomas, como vemos na expansão da OTAN sobre reservas naturais na Romênia e na Polônia. Os dados são estarrecedores: o setor militar é responsável por cerca de 5,5% das emissões globais de gases de efeito estufa, mais que a aviação civil e o transporte marítimo somados. Exércitos não defendem o planeta: eles o preparam para a aniquilação. A chamada “paz armada” é a maior mentira do século XXI, pois sob o manto da dissuasão, o que se pratica é a normalização da violência como política – e a violência, como bem sabemos, sempre cai primeiro sobre os ombros dos mais pobres, negros, indígenas e periféricos.

Diante disso, a resposta anarquista não pode ser a reforma tímida ou o apelo à “desmilitarização negociada” dentro das câmaras do poder. A alternativa é a desobediência radical: recusa ao serviço militar, sabotagem às cadeias logísticas da morte, ocupação de fábricas de armamentos e construção de redes horizontais de autodefesa popular. Não queremos mais orçamentos participativos para polícias – queremos a extinção de toda hierarquia armada que se arvora em nos proteger. Que venham as assembleias de bairro, os mutirões de cuidado mútuo, as milícias populares desarmadas e organizadas por afinidade. Enquanto o capital e o Estado dançarem a valsa dos mísseis, nós cavaremos trincheiras na solidariedade – porque a única guerra justa é a que destruir, de uma vez por todas, a lógica de que a vida se mede pela capacidade de matar.

A., uma anarquista filiada à FACA.

Outro mundo é possível, em Venda Nova do Imigrante -ES

No dia 04 de junho de 2026, a Federação Anarquista Capixaba realizou uma roda de conversa na Praça Aldo Mineti, em Venda Nova do Imigrante/ES, com o tema “Outro mundo é possível”. A atividade reuniu jovens trabalhadorxs da cidade em um espaço aberto de diálogo, reflexão e troca de experiências sobre os desafios enfrentados no cotidiano e as possibilidades de transformação social.

Durante o encontro, uma companheira da Federação conduziu o debate, apresentando reflexões sobre as limitações impostas pelo capitalismo e pelo Estado na organização da vida em sociedade. A conversa buscou estimular uma análise crítica das estruturas que moldam as relações de trabalho, o acesso aos recursos e a participação popular nas decisões que afetam a coletividade.

Além da discussão teórica, a atividade contou com exercícios de imaginação coletiva, incentivando os presentes a pensarem em formas alternativas de organização social baseadas na solidariedade, no apoio mútuo, na autogestão e na cooperação. As contribuições dos participantes enriqueceram o debate, trazendo exemplos concretos de resistência, organização comunitária e construção de relações mais horizontais.

A roda de conversa reforçou a importância da construção de espaços de formação e encontro entre trabalhadorxs, fortalecendo vínculos e compartilhando perspectivas de transformação social. A atividade demonstrou o interesse dos participantes em refletir sobre alternativas ao modelo vigente e reafirmou o compromisso da FACA com a construção coletiva de caminhos para uma sociedade mais livre, justa e igualitária.

Federação Anarquista Capixaba – FACA
Filiada à União Anarquista Federalista – UAF

A crise é permanente, a única saída é horizontal

A crise do capital não é um acidente de percurso, uma fase passageira ou um soluço cíclico que se resolverá com ajustes bem-intencionados. Ela é a sua essência, o seu modo permanente de ser. O capitalismo vive da exploração ininterrupta dos corpos, dos territórios e dos afetos; sua “estabilidade” é apenas o silêncio tenso entre uma catástrofe social e outra. Cada dia de funcionamento normal desse sistema é um dia de crise para a maioria explorada — crise de moradia, de alimento, de saúde mental, de sentido. Reconhecer esse caráter crônico da devastação é o primeiro passo para abandonarmos a ilusão de remendos e assumirmos que a única resposta à altura é uma organização radicalmente nova, que não se deixe domesticar.

As fórmulas que nos ofereceram ao longo de mais de um século já deram todas as provas de seu fracasso. O partido de vanguarda, que prometia tomar o Estado e emancipar a classe, tornou-se sinônimo de burocracia autoritária, fuzilamento de dissidentes e capitalismo de Estado. O sindicalismo institucionalizado, com suas cúpulas negociadoras e fundos de pensão, aprendeu a gerir a miséria enquanto sufocava a revolta espontânea do chão de fábrica. A social-democracia, com seu paraíso de direitos temporários financiados pela espoliação do Sul Global, revelou-se uma trégua frágil, desmontada sem cerimônia assim que a acumulação exigiu. Todas essas receitas partem de um mesmo veneno: a concentração de poder, a delegação da luta a especialistas, a crença de que uns poucos podem decidir por todas. Já testamos a hierarquia sob todos os disfarces — e ela nos devolveu, invariavelmente, novas correntes.

A organização dxs exploradxs, para enfrentar uma guerra que não cessa, precisa ser tão viva e capilar quanto o próprio ataque. Precisa ser horizontal, onde cada voz tenha peso real e as decisões brotem das assembleias de base, e não dos gabinetes iluminados. Solidária, porque a competição que o capital nos injeta é a maior aliada da dominação; precisamos de apoio mútuo que faça da sobrevivência um ato coletivo de afeto e resistência. Autogestionária, para que a luta seja, desde já, a semente do mundo que queremos: sem patrões, sem gerentes da revolução, sem quem mande e quem obedeça. Essa não é uma utopia ingênua, mas a prática concreta de quem, nas ocupações de terra e de teto, nas cozinhas comunitárias, nos piquetes autônomos e nas redes de cuidado, já demonstra que outra arquitetura social é possível, aqui e agora, sob as ruínas do presente.

As demais promessas estão sepultadas. O socialismo de Estado ruiu no século XX, deixando um legado de gulags e desencanto. O reformismo eleitoral tornou-se gestor da crise, aplaudindo o desmatamento enquanto distribui migalhas. Resta-nos o anarquismo, não como um dogma do passado, mas como a única bússola que insiste em não trocar a liberdade pela eficiência do matadouro. Resta-nos a teia de cumplicidades que não se deixa capturar por CNPJ, ministério ou comitê central. Resta-nos a coragem de assumir que somos nós, xs precarizadxs, xs sem-terra, xs periféricxs, xs indesejadxs, quem podemos — e devemos — dirigir nossos próprios passos, sem pedir licença a qualquer instância que se coloque acima de nós. Tudo o que não é horizontal termina verticalmente sobre nossos corpos.

Por isso, o convite não é para aderir a uma legenda ou aplaudir um líder — é para arriscar. Experimentar a autogestão na sua ocupação, no seu bairro, no seu local de trabalho. Transformar a raiva em ação direta, sem esperar que um comitê aprove. Tecer alianças livres e federadas, que não procurem tomar o poder, mas dissolvê-lo em milhares de vínculos comunais. O capital não espera, a crise não dá trégua, e nós também não podemos esperar. Venha conosco construir um mundo novo no ventre do monstro: um mundo onde caibam todos os mundos, sem hierarquias, sem cercas, sem medo. Arrisque, experimente e venha conosco!

Federação Anarquista Capixaba – FACA

Atendimentos jurídicos da FACA em Junho de 2026

A Federação Anarquista Capixaba divulga sua agenda de atendimentos jurídicos e sindicais do mês de junho de 2026.

Todos os atendimentos serão realizados mediante agendamento no e-mail fedca@riseup.net.

DIAS E LOCAIS:

03/06/2026: Marataízes/ES

04/06/2026: Piúma/ES

10/06/2026: Laranja da Terra/ES

11/06/2026: Cachoeiro de Itapemirim/ES

19/06/2026: Iconha/ES

26/06/2026: Nova Venécia/ES.

Reforçamos: os atendimentos se darão mediante prévio agendamento no e-mail fedca@riseup.net.

Pela transformação social!

Pelo socialismo libertário!

Federação Anarquista Capixaba – FACA

Federada à União Anarquista Federalista – UAF

Live da UAF: 16/05/2026

A FACA reproduz e dissemina a atividade da UAF, convidando todxs compas para se somarem ao evento!

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Não se engane: a famigerada escala 6×1 não é apenas um “modelo de jornada”, ela é a face mais brutal e cruel da exploração capitalista no mundo do trabalho moderno. Ela representa o sequestro da nossa vida, a alienação da nossa existência e o roubo sistemático do nosso tempo em troca de migalhas para sobreviver. É a materialização da lógica perversa de que o trabalhador existe apenas para gerar lucro, enquanto seu corpo adoece, sua mente se esgota e seus sonhos são esmagados sob o peso da produção insana. Por isso, não podemos tratar isso como um simples debate técnico ou uma pauta reformista qualquer.

O Brasil e o mundo do trabalho moderno estão imersos em uma crise profunda de humanidade, onde o “tempo é dinheiro” se converteu em um decreto de morte social para a classe trabalhadora. A escala 6×1, em especial, é o símbolo máximo da opressão patronal: é a engrenagem que gira sem descanso para garantir que o patrão acumule riquezas enquanto o operário só acumula cansaço e dívidas. A imagem do relógio e do trabalhador em silhueta na divulgação não é um acaso estético; é um grito visual que denuncia uma vida vivida em função do serviço, onde o “descanso” é apenas um curto intervalo para recarregar as baterias para a próxima rodada de exploração. Esta não é uma discussão sobre leis trabalhistas, é uma discussão sobre a luta de classes.

Chega de conciliação, chega de aceitar migalhas como vitórias. A União Anarquista Federalista convida todos e todas para uma reflexão que é, antes de tudo, um ato de resistência. Não vamos falar sobre como “melhorar” o capitalismo ou como “humanizar” a exploração. Vamos discutir a lógica perversa do trabalho assalariado e como podemos nos libertar dessa jaula. É preciso romper com a passividade, organizar a resistência nos locais de trabalho e construir as bases para uma vida livre, onde o trabalho sirva às necessidades humanas e não ao lucro de meia dúzia de parasitas. Essa live é um chamado às armas, um ponto de encontro para a construção da consciência e da autogestão de classe.

A luta por uma existência digna não espera. Marque na sua agenda e prepare seu espírito combativo: a LIVE DA UAF acontecerá no dia 16/05/2026, às 15 horas, pelo canal do YouTube @uaf-br. Não se trata de um evento passivo, mas de uma trincheira de debates e da construção coletiva de um futuro sem patrões, sem jornadas que adoecem e sem as correntes invisíveis do trabalho moderno. Traga sua indignação, traga sua força, mas acima de tudo, traga sua vontade de mudar o mundo. Pela nossa liberdade e contra toda opressão do trabalho!

União Anarquista Federalista – UAF
Filiada à Internacional de Federações Anarquistas – IFA

Guerra: máquina de produzir morte

Reproduzimos abaixo o texto de nossa companheira P., sobre os gastos militares e a guerra.

Dois vírgula quarenta e quatro trilhões de dólares. É com esse número estarrecedor, um monumento à insanidade humana, que o mundo escolheu escrever sua história recente. Dinheiro suficiente para curar, alimentar e educar cada pessoa neste planeta foi desviado para uma máquina de morte global. Ver esse dado não é apenas um choque para mim, como uma jovem anarquista; é a pesada confirmação de que as estruturas que nos governam são, em sua essência, máquinas de produzir sofrimento. Enquanto aumento salarial e justiça social, principalmente no Brasil, são tratados como utopias irresponsáveis, a indústria da morte encontra um mar de financiamento sem fundo. A conclusão é límpida e aterradora: o Estado e o Capital não são nossas ferramentas de proteção, mas os dois motores insaciáveis que nos arrastam para o abismo da guerra.

Falar do Estado, essa abstração que exige obediência e sacrifício, é desmascarar a raiz da guerra. Dizem-nos que ele existe para a nossa segurança, mas a sua própria lógica é a da competição incessante. Ele precisa de um “inimigo” externo para justificar o monopólio da violência interna. A “competição de grandes potências”, esse eufemismo cínico que move os EUA, a China e uma Rússia expansionista, não é um desvio de conduta, mas o DNA do Leviatã. A ressurreição da OTAN, com 23 de seus membros marchando obedientemente para a meta dos 2% do PIB, não é defesa; é um frenesi armamentista. Quando a Polônia se lança a gastar 4,2% de sua riqueza em tanques e mísseis, não celebra a segurança, celebra a submissão da vida humana à lógica necrófila da soberania nacional. A Alemanha, com seu fundo de 100 bilhões, não protege seu povo; arma-o para a próxima catástrofe. O Estado é uma entidade que, para afirmar sua própria existência, precisa do permanente espetáculo do medo e da fronteira armada.

Se o Estado é o cérebro paranoico que arquiteta a guerra, o Capital é o coração pulsante que bombeia sangue para os arsenais. O gasto de 2,44 trilhões de dólares não é um infeliz custo político; é o maior negócio da história. A Lockheed Martin, a Raytheon, os acionistas que nunca verão um campo de batalha, são os verdadeiros vencedores de cada conflito. A “economia de guerra” russa, operando 24 horas por dia, não é um ato de resiliência nacional, mas um banquete para uma oligarquia que lucra com a morte de soldados e civis. Cada míssil Patriot vendido, cada submarino nuclear do pacto AUKUS, é a conversão de recursos públicos — nosso trabalho, nossa educação, nossa saúde — em lucro privado. A guerra é o ápice do capitalismo de desastre, onde o sangue alheio lubrifica as engrenagens da acumulação infinita.

A sanha do Capital e do Estado é tão voraz que já não se contenta em dominar a terra e o mar; ela precisa engolir o infinito. O espaço sideral, a última fronteira da imaginação humana, está sendo militarizado e transformado em um novo território de disputa imperial. A Força Espacial dos EUA e os testes de armas antissatélite da China e da Rússia não representam ousadia tecnológica; são a expansão da lógica da propriedade privada e do controle estatal para fora da atmosfera. O ciberespaço, que poderia ser um bem comum de conexão e conhecimento livre, foi sequestrado por comandos cibernéticos e exércitos de hackers. A Inteligência Artificial, que poderia nos libertar do trabalho alienado, está sendo treinada para guiar enxames de drones autônomos. A mensagem é clara: onde houver um átomo de matéria ou um impulso digital, o Estado e o Capital tentarão cercá-lo, explorá-lo e, se possível, destruí-lo em nome do poder.

E para que essa orgia de destruição continue sem obstáculos, o arcabouço jurídico que fingia nos proteger teve que ser demolido. O colapso do tratado INF e a suspensão do New START não são acidentes diplomáticos; são uma confissão. O Estado-nação, quando confrontado com a própria lógica, sempre rasgará os pedaços de papel que limitam seu poder de matar. Esses tratados, assinados por elites que jamais enfrentarão as baionetas, serviam apenas como válvulas de escape para gerenciar a tensão. Ao serem rasgados, revelam a verdade nua e crua: não há reforma possível da máquina de guerra interestatal. Ela é, por definição, uma estrutura anárquica (no sentido hobbesiano) de competição violenta, que só podemos responder com uma anarquia de cooperação e apoio mútuo.

Esta militarização total não é apenas um evento externo; ela contamina a nossa subjetividade e o tecido social. Ela nos disciplina através do medo e da escassez forjada. A fábrica social nos ensina que a obediência a uma bandeira é virtude, e que questionar a indústria da morte é falta de patriotismo. Enquanto isso, a solidariedade de classe, a única força real que pode cruzar fronteças, é dilacerada por narrativas nacionais que nos fazem odiar um proletário vestindo um uniforme de outra cor. Cada dólar gasto em um míssil hipersônico é um soco na cara do apoio mútuo, do cuidado comunitário e da ajuda humanitária que brotam espontaneamente entre os povos quando os Estados desmoronam.

Por isso, nossa resposta não pode ser um apelo por um “império benevolente” ou uma “guerra justa”. Nossa denúncia é de raiz: a guerra não é uma falha do sistema, é a sua mais pura manifestação. Enquanto existirem fronteiras para defender e lucros para extrair da pilhagem, o Estado e o Capital produzirão novos ucranianos, novos palestinos, novas vítimas para as estatísticas do SIPRI. A nossa trincheira é contra a própria ideia de trincheira. Lutamos não para gerenciar a morte, mas para construir a vida em sua plenitude, em uma federação livre de comunidades autogeridas, onde os 2,44 trilhões de dólares não financiem a aniquilação da humanidade, mas, sim, o seu florescimento. A única guerra que defendemos é a guerra social contra os verdadeiros inimigos da paz: o patrão, o general e o político que os serve.

P., uma anarquista federada à FACA.