Guerra: máquina de produzir morte

Reproduzimos abaixo o texto de nossa companheira P., sobre os gastos militares e a guerra.

Dois vírgula quarenta e quatro trilhões de dólares. É com esse número estarrecedor, um monumento à insanidade humana, que o mundo escolheu escrever sua história recente. Dinheiro suficiente para curar, alimentar e educar cada pessoa neste planeta foi desviado para uma máquina de morte global. Ver esse dado não é apenas um choque para mim, como uma jovem anarquista; é a pesada confirmação de que as estruturas que nos governam são, em sua essência, máquinas de produzir sofrimento. Enquanto aumento salarial e justiça social, principalmente no Brasil, são tratados como utopias irresponsáveis, a indústria da morte encontra um mar de financiamento sem fundo. A conclusão é límpida e aterradora: o Estado e o Capital não são nossas ferramentas de proteção, mas os dois motores insaciáveis que nos arrastam para o abismo da guerra.

Falar do Estado, essa abstração que exige obediência e sacrifício, é desmascarar a raiz da guerra. Dizem-nos que ele existe para a nossa segurança, mas a sua própria lógica é a da competição incessante. Ele precisa de um “inimigo” externo para justificar o monopólio da violência interna. A “competição de grandes potências”, esse eufemismo cínico que move os EUA, a China e uma Rússia expansionista, não é um desvio de conduta, mas o DNA do Leviatã. A ressurreição da OTAN, com 23 de seus membros marchando obedientemente para a meta dos 2% do PIB, não é defesa; é um frenesi armamentista. Quando a Polônia se lança a gastar 4,2% de sua riqueza em tanques e mísseis, não celebra a segurança, celebra a submissão da vida humana à lógica necrófila da soberania nacional. A Alemanha, com seu fundo de 100 bilhões, não protege seu povo; arma-o para a próxima catástrofe. O Estado é uma entidade que, para afirmar sua própria existência, precisa do permanente espetáculo do medo e da fronteira armada.

Se o Estado é o cérebro paranoico que arquiteta a guerra, o Capital é o coração pulsante que bombeia sangue para os arsenais. O gasto de 2,44 trilhões de dólares não é um infeliz custo político; é o maior negócio da história. A Lockheed Martin, a Raytheon, os acionistas que nunca verão um campo de batalha, são os verdadeiros vencedores de cada conflito. A “economia de guerra” russa, operando 24 horas por dia, não é um ato de resiliência nacional, mas um banquete para uma oligarquia que lucra com a morte de soldados e civis. Cada míssil Patriot vendido, cada submarino nuclear do pacto AUKUS, é a conversão de recursos públicos — nosso trabalho, nossa educação, nossa saúde — em lucro privado. A guerra é o ápice do capitalismo de desastre, onde o sangue alheio lubrifica as engrenagens da acumulação infinita.

A sanha do Capital e do Estado é tão voraz que já não se contenta em dominar a terra e o mar; ela precisa engolir o infinito. O espaço sideral, a última fronteira da imaginação humana, está sendo militarizado e transformado em um novo território de disputa imperial. A Força Espacial dos EUA e os testes de armas antissatélite da China e da Rússia não representam ousadia tecnológica; são a expansão da lógica da propriedade privada e do controle estatal para fora da atmosfera. O ciberespaço, que poderia ser um bem comum de conexão e conhecimento livre, foi sequestrado por comandos cibernéticos e exércitos de hackers. A Inteligência Artificial, que poderia nos libertar do trabalho alienado, está sendo treinada para guiar enxames de drones autônomos. A mensagem é clara: onde houver um átomo de matéria ou um impulso digital, o Estado e o Capital tentarão cercá-lo, explorá-lo e, se possível, destruí-lo em nome do poder.

E para que essa orgia de destruição continue sem obstáculos, o arcabouço jurídico que fingia nos proteger teve que ser demolido. O colapso do tratado INF e a suspensão do New START não são acidentes diplomáticos; são uma confissão. O Estado-nação, quando confrontado com a própria lógica, sempre rasgará os pedaços de papel que limitam seu poder de matar. Esses tratados, assinados por elites que jamais enfrentarão as baionetas, serviam apenas como válvulas de escape para gerenciar a tensão. Ao serem rasgados, revelam a verdade nua e crua: não há reforma possível da máquina de guerra interestatal. Ela é, por definição, uma estrutura anárquica (no sentido hobbesiano) de competição violenta, que só podemos responder com uma anarquia de cooperação e apoio mútuo.

Esta militarização total não é apenas um evento externo; ela contamina a nossa subjetividade e o tecido social. Ela nos disciplina através do medo e da escassez forjada. A fábrica social nos ensina que a obediência a uma bandeira é virtude, e que questionar a indústria da morte é falta de patriotismo. Enquanto isso, a solidariedade de classe, a única força real que pode cruzar fronteças, é dilacerada por narrativas nacionais que nos fazem odiar um proletário vestindo um uniforme de outra cor. Cada dólar gasto em um míssil hipersônico é um soco na cara do apoio mútuo, do cuidado comunitário e da ajuda humanitária que brotam espontaneamente entre os povos quando os Estados desmoronam.

Por isso, nossa resposta não pode ser um apelo por um “império benevolente” ou uma “guerra justa”. Nossa denúncia é de raiz: a guerra não é uma falha do sistema, é a sua mais pura manifestação. Enquanto existirem fronteiras para defender e lucros para extrair da pilhagem, o Estado e o Capital produzirão novos ucranianos, novos palestinos, novas vítimas para as estatísticas do SIPRI. A nossa trincheira é contra a própria ideia de trincheira. Lutamos não para gerenciar a morte, mas para construir a vida em sua plenitude, em uma federação livre de comunidades autogeridas, onde os 2,44 trilhões de dólares não financiem a aniquilação da humanidade, mas, sim, o seu florescimento. A única guerra que defendemos é a guerra social contra os verdadeiros inimigos da paz: o patrão, o general e o político que os serve.

P., uma anarquista federada à FACA.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *