Chão de fábrica, terreno de luta!

Companheiros e companheiras, é no chão da fábrica, no escritório, no canteiro de obras, no mercado, no aplicativo e em cada canto onde a gente vende nossa força por um salário miserável que o sistema mostra sua cara mais cruel. É ali, diante da máquina e do patrão, que sentimos na pele o suor da exploração. O capitalismo não é uma abstração distante; ele se materializa na jornada exaustiva, no assédio do chefe, na ameaça constante da demissão e no lucro que some nos bolsos de quem não produz porra nenhuma. Por isso, o local de trabalho é a nossa principal trincheira de luta. É onde as engrenagens giram e é exatamente ali que devemos enfiar o pé na roda!

Durante décadas, nos venderam a ilusão de que a solução viria de fora: de um político bonzinho, de uma lei trabalhista ou de um sindicato pelegueiro que negocia nossos direitos por migalhas. Mas a verdade é que ninguém vai nos libertar além de nós mesmos. A organização no local de trabalho é uma das armas mais poderosas que temos. É construindo comissões, núcleos de base e coletivos por setor que conseguimos enxergar quem realmente está ao nosso lado e quem está vendido ao sistema. É no dia a dia, dividindo o intervalo e a raiva, que forjamos a confiança necessária para agir. Uma paralisação relâmpago, uma operação-tartaruga, uma sabotagem estratégica na produção ou simplesmente a recusa coletiva a aceitar uma ordem abusiva — tudo isso nasce da organização invisível mas sólida que construímos entre os nossos.

Não se enganem: o patrão treme quando percebe que os trabalhadores estão conversando entre si sem a supervisão dele. Ele sabe que a união da classe é o prenúncio do fim dos seus lucros. Por isso, a FACA chama todos os trabalhadores e trabalhadoras a abandonarem o individualismo e a passividade que o sistema nos ensina. Vamos ocupar os espaços de trabalho com a nossa consciência de classe! Vamos transformar o cafezinho e a roda de fumo em células de resistência. Vamos nos apropriar dos saberes da produção para usá-los contra quem nos explora. A fábrica não é dele, é nossa! O lucro que ele acumula foi suor nosso, e está na hora de reivindicarmos não apenas migalhas, mas o controle de tudo o que produzimos.

Que este ano nos encontre mais organizados dentro de cada local de trabalho! A Federação Anarquista Capixaba (FACA) está ao lado de quem constrói a luta por dentro, enfrentando o chicote invisível do patrão e a burocracia sindical vendida. Se você está cansado de chegar em casa exausto e ver seu trabalho enriquecer um canalha, chega junto! Vamos fortalecer as comissões, articular as categorias e preparar o terreno para a greve geral que sacudirá esse sistema. A revolução não começa nos palanques, começa no chão da fábrica. Organize-se com seus iguais, confie na sua classe e prepare a sabotagem. O poder está nas nossas mãos, basta a gente se unir para tomar o que é nosso!

Federação Anarquista Capixaba (FACA)

Filiada à União Anarquista Federalista

A dupla greve de Genebra*

Por Mikail Bakunin

Os burgueses provocam-nos. Esforçam-se para levar-nos ao desespero por todos os meios, pensando, não sem muita razão, que seria muito bom para seus interesses forçar-nos a travar batalha com eles hoje.

Caluniam-nos e insultam-nos em seus jornais; desnaturam, travestem e inventam fatos, contando com as simpatias de seu público, que os perdoará tudo, desde os burgueses, os patrões sejam inocentados e os trabalhadores caluniados. Seguros dessa impunidade e dessa simpatia, o Journal de Genève, sobretudo, o devoto mentiroso, supera-se em mentiras.

Eles não se contentam em provocar-nos e insultar-nos por meio de seus escritos; impacientes para fazerem-nos perder a paciência, recorrem às vias de fato. Seus tristes filhos, essa juventude dourada cujo ócio corrompido e vergonhoso detesta o trabalho e os trabalhadores; esses acadêmicos, doutos em teologia e ignorantes da ciência, esses liberais da rica burguesia, vão às ruas, como no ano passado, e amontoam-se nos cafés, armados de revólveres mal dissimulados em seus bolsos. Dir-se-ia que eles temem um ataque por parte dos operários e que se creem forçados a afastá-los.

Eles creem seriamente nisso? Não, absolutamente não, mas simulam crer para ter o pretexto de armar-se e um motivo plausível para atacar. Sim, para atacar-nos, pois, na terça-feira passada, ousaram espancar alguns de nossos companheiros que, provocados por todos os insultos, responderam por verdades bastante desagradáveis, sem dúvida, para ouvidos tão delicados quanto os deles, mas que nem sequer encostaram as mãos neles. Permitiram-se detê-los e maltratá-los durante algumas horas, até que uma comissão enviada pela Associação Internacional à Prefeitura foi buscá-los.

O que pensam esses burgueses? Querem realmente forçar-nos a ir para as ruas de armas em punho? Sim, eles o querem. E por que o desejam? A razão é bem simples: desejam matar a Internacional.

Basta ler os jornais burgueses, isto é, quase todos os jornais de todos os países, para persuadir-se de que, se há, hoje, uma coisa que, mais do que qualquer outra, é um objeto de temor e horror para a burguesia na Europa, é a Associação Internacional dos Trabalhadores. E, como devemos ser justos, antes de tudo, justos inclusive em relação aos nossos adversários mais encarniçados, devemos reconhecer que a burguesia tem mil vezes razão para abominar e temer essa formidável associação.

Toda a prosperidade burguesa, sabemo-lo, como prosperidade exclusiva, está fundada sobre a miséria e sobre o trabalho forçado do povo, forçado não pela lei, mas pela fome. Essa escravidão do trabalho denomina-se, é verdade, nos jornais liberais tais como o Journal de Genèbve, a liberdade do trabalho. Mas essa estranha liberdade é comparável àquela de um homem desarmado e nu, que se o entregaria à mercê de um outro armado dos pés à cabeça. É a liberdade de fazer-se esmagar, abater. – Tal é a liberdade burguesa. Compreende-se que os burgueses adorem-na e que os trabalhadores não a suportem absolutamente; pois essa liberdade é para os burgueses a riqueza, e para os trabalhadores a miséria.

Os trabalhadores estão cansados de serem escravos. Não menos que os burgueses, mais do que os burgueses, eles amam a liberdade, porque compreendem muito bem, sabem por uma dolorosa experiência que sem liberdade não pode haver para o homem dignidade nem prosperidade. Mas não compreendem a liberdade senão na igualdade; porque a liberdade na desigualdade é o privilégio, quer dizer, a fruição de alguns fundada no sofrimento de todos. – Eles querem a igualdade política e econômica simultaneamente porque a igualdade política sem a igualdade econômica é uma ficção, uma enganação, uma mentira, e eles não querem mais mentiras. Os trabalhadores tendem, então, necessariamente, a uma transformação radical da sociedade que deve ter por resultado a abolição das classes do ponto de vista econômico tanto quanto político, e a uma organização na qual todos os homens nascerão, desenvolver-se-ão, instruir-se-ão, trabalharão e fruirão dos bens da vida em condições iguais para todos. Tal é o desejo da justiça, tal é, também, o objetivo final da Associação Internacional dos Trabalhadores.

Mas como ir do abismo de ignorância, de miséria e de escravidão na qual os proletários dos campos e das cidades estão hoje mergulhados, a esse paraíso, a essa realização da justiça e da humanidade sobre a terra? Para isso, os trabalhadores só têm um meio: a associação. Pela associação, eles instruem-se, informam-se mutuamente, e põem fim, por seus próprios esforços, a essa fatal ignorância que é uma das principais causas de sua escravidão. Pela associação, eles aprendem a ajudar-se, conhecer-se, apoiar-se um no outro, e acabarão por criar uma força mais formidável do que aquela de todos os capitais burgueses e de todos os poderes políticos reunidos.

A Associação tornou-se, portanto, a palavra de ordem dos trabalhadores de todas as indústrias e de todos os países, nesses vinte últimos anos sobretudo, e toda a Europa encontrou-se munida, como por encantamento, de uma multidão de sociedades operárias de todos os tipos. É incontestavelmente o fato mais importante e ao mesmo tempo mais consolador de nossa época – o sinal infalível da emancipação próxima e completa do trabalho e dos trabalhadores na Europa.

Mas a experiência desses mesmos vinte anos provou que as associações isoladas eram aproximadamente tão impotentes quanto os trabalhadores isolados, e que mesmo a federação de todas as associações operárias de um único país não bastaria para criar uma força capaz de lutar contra a coalizão internacional de todos os capitais exploradores do trabalho na Europa; a ciência econômica demonstrou, por outro lado, que a questão da emancipação do trabalho não é absolutamente uma questão nacional; que nenhum país, por mais rico, por mais poderoso e por mais importante que ele seja, não pode, sem arruinar-se e sem condenar todos os seus habitantes à miséria, empreender qualquer transformação radical das relações do capital e do trabalho se essa transformação não se faz igualmente, e ao mesmo tempo, ao menos em uma grande parte dos países mais industriosos da Europa, e que, por consequência, a questão da libertação dos trabalhadores do jugo do capital e de seus representantes, os burgueses, é uma questão eminentemente internacional. Disso resulta que a solução só é possível no terreno da internacionalidade.

Operários inteligentes, alemães, ingleses, belgas, franceses e suíços, fundadores de nossa bela instituição, compreenderam-no. Eles também compreenderam que, para realizar essa magnífica obra da emancipação internacional do trabalho, os trabalhadores da Europa, explorados pelos burgueses e esmagados pelos Estados, só deviam contar com eles próprios. Assim foi criada a grande Associação Internacional dos Trabalhadores.

Sim, grande e formidável, verdadeiramente! Ela tem apenas quatro anos e meio de existência e já abrange várias centenas de milhares de aderentes disseminados e estreitamente aliados em quase todos os países da Europa e também da América. Um pensamento e uma empresa que produzem em tão pouco tempo tais frutos, só pode ser um pensamento salutar, uma empresa legítima.

Trata-se de um pensamento secreto, de uma conspiração? Sem dúvida algum. Se a Internacional conspira, ela o faz às claras e diz a quem quiser ouvi-la. E o que ela diz, o que pede? A justiça, nada além da mais estrita justiça e o direito da humanidade, e a obrigação do trabalho para todos. Se à sociedade burguesa atual esse pensamento parece subversivo e abjeto, tanto pior para essa sociedade.

Trata-se de uma empresa revolucionária? Sim e não. Ela é revolucionária no sentido que quer substituir uma sociedade fundada na iniquidade, na exploração da imensa maioria dos homens por uma minoria opressiva, no privilégio, no ócio, e em uma autoridade protetora de todas essas belas coisas, por uma sociedade fundada nessa justiça igual para todos e na liberdade de todos. Ela quer, em resumo, uma organização econômica, política e social, na qual todo ser humano, sem prejuízo para suas particularidades naturais e individuais, encontre uma igual possibilidade de desenvolver-se, instruir-se, pensar, trabalhar, agir e desfrutar a vida como homem. Sim, ela quer isso, e, uma vez mais, se o que ela quer é incompatível com a atual organização da sociedade, tanto pior para essa sociedade.

A Associação Internacional é revolucionária no sentido das barricadas e de uma derrubada violenta da ordem política atualmente existente na Europa? Não: ela ocupa-se muito pouco dessa política, e, inclusive, não se ocupa absolutamente disso. Assim, os revolucionários burgueses querem-lhe muito mal pela indiferença que ela testemunha em relação às suas aspirações e a todos os seus projetos. Se a Internacional não tivesse compreendido desde há muito que toda política burguesa, por mais vermelha e revolucionária que pareça, tende não à emancipação dos trabalhadores, mas à consolidação de sua escravidão, o papel lamentável desempenhado neste momento pelos republicanos e, inclusive, pelos socialistas burgueses na Espanha bastaria para abrir-lhe os olhos.

A Associação Internacional dos Trabalhadores, fazendo completa abstração de todas as intrigas políticas atualmente, só conhece, neste momento, uma única política: aquela de sua propaganda, de sua extensão e de sua organização. No dia em que a grande maioria dos trabalhadores da América e da Europa tiver ingressado e estiver bem organizada em seu seio, não haverá mais necessidade de revolução; sem violência a justiça será feita. E, então, se houver cabeças quebradas, é porque os burgueses assim o quiseram.

Mais alguns anos de desenvolvimento pacífico e a Associação Internacional tornar-se-á uma força contra a qual será ridículo querer lutar. Eis o que os burgueses compreendem demasiado bem, e eis por que eles hoje provocam-nos para a luta. Hoje, eles esperam ainda poder afastar-nos, mas sabem que amanhã será demasiado tarde. Eles querem forçar-nos a travar batalha com eles agora.

Cairemos nessa armadilha grosseira, operários? Não. Faríamos muito prazer aos burgueses e arruinaríamos a nossa causa por muito tempo. Temos conosco a justiça, o direito, mas nossa força ainda não é suficiente para lutar. Comprimamos, pois, nossa indignação em nossos corações, permaneçamos firmes, inquebrantáveis, mas calmos, quaisquer que sejam as provocações dos jovens arrogantes e impertinentes da burguesia. Suportemos ainda; não estamos habituados a sofrer? Soframos, mas não esqueçamos nada.

E, enquanto aguardamos, prossigamos, redobremos, ampliemos cada vez mais o trabalho de nossa propaganda. É preciso que os trabalhadores de todos os países, os camponeses bem como os operários das fábricas e das cidades, saibam o que quer a Associação Internacional, e compreenderam que, fora de seu triunfo não há para eles qualquer outro meio de emancipação sério; que a Associação Internacional é a pátria de todos os trabalhadores oprimidos, o único refúgio contra a exploração dos burgueses, a única força capaz de derrubar o poder insolente dos burgueses.

Organizemo-nos, ampliemos a nossa Associação, mas, ao mesmo tempo, não esqueçamos de consolidá-la a fim de que nossa solidariedade, que é toda a nossa força, torne-se a cada dia mais real. Sejamos cada vez mais solidários no estudo, no trabalho, na ação pública, na vida. Associemo-nos em empresas comuns para fazer nossa existência um pouco mais suportável e menos difícil; formemos em toda parte, e tanto quanto nos seja possível, essas sociedades de consumo, de crédito mutual e de produção, que, conquanto incapazes de emancipar-nos de uma maneira suficiente e séria nas condições econômicas atuais, habituam os operários à prática dos negócios e preparam germes preciosos para a organização do futuro.

Esse futuro está próximo. Que a unidade de escravidão e miséria que hoje abraça os trabalhadores do mundo inteiro transforme-se, para todos nós, em unidade de pensamento e vontade, de objetivo e ação – e a hora da libertação e da justiça para todos, a hora da reivindicação e da plena satisfação soará.

* Este texto encerra a sequência de escritos de Bakunin publicados pela FACA entre os meses de Fevereiro e Março de 2026.

Discurso do cidadão Bakunin a uma Assembleia Pública de socialistas estrangeiros

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Após ter dito que a Assembleia não se reunira apenas para prestar homenagem à memória do bravo republicano Baudin, assassinado pelos bandoleiros de dezembro, mas ainda para exprimir seu devotamento aos princípios da República democrática e social, o cidadão Bakunin exprimiu-se nesses termos:

Somos socialistas, isto é, desejamos todos:

A igualdade das condições políticas, econômicas e sociais para todos;

A igualdade dos meios de sustento, de educação, de instrução para todas as crianças dos dois sexos – e aquela dos meios de trabalho para todos os homens viris e para as mulheres.

Queremos a justiça social e a liberdade real de cada ser humano pela solidariedade de todos;

Queremos a Fraternidade de todos os seres humanos sobre a terra, sem distinção de nações, cor e raça.

Queremos que a paz reine no mundo, fundada na razão esclarecida pela ciência, fundada na justiça humana, isto é, na liberdade, na igualdade e na universal fraternidade. Mas quem quer o fim, deve querer os meios. Devemos, pois, querer a abolição de todas as fronteiras políticas criadas pela violência dos Estados. Queremos a supressão dos Estados, seu desaparecimento na organização livre e universal da sociedade humana.

Quem diz Estado, diz fortaleza, diz separação violenta de uma porção da humanidade de todas as outras porções igualmente aprisionadas em outros Estados; diz rivalidade, concorrência e guerra perpétua dos Estados; diz conquista, espoliação e massacre patriótico e glorioso no exterior e no interior: opressão e exploração legalizada e regulada do trabalho popular, em proveito de uma minoria dominante.

A paixão correspondente a essa dupla manifestação dos Estados chama-se patriotismo. Não queremos mais patriotismo, pois queremos a justiça, o direito humano e a fraternidade humana.

Quem diz Estado, diz privilégio. O privilégio por excelência que serve de fundamento a todas as outras injustiças políticas e sociais é a propriedade individualmente hereditária.

Essa propriedade tem por elementos, de início, seu ponto de partida, sua base histórica e real: a conquista, um fato sangrento e brutal, um delito contra a humanidade e contra a justiça, uma espoliação ou um massacre qualquer e, na maioria das vezes, ambos simultaneamente; em seguida, a consagração do ato violento realizado pela religião – a divindade tendo tomado em todos os tempos o partido dos mais hábeis e dos mais fortes; dessa consagração resultou o direito jurídico, a injustiça petrificada, sistematizada e legalizada. O conjunto de tudo isso se chama – Estado político.

Queremos, portanto, a abolição desse Estado, porque ele não tem outra missão senão proteger a propriedade individual; e nós queremos a abolição da propriedade individual porque enquanto ela existir, haverá necessariamente desigualdade. A sociedade permanecerá partilhada em duas porções, das quais uma – a minoria dominante e exploradora – será composta de todos os felizes da terra, nascendo na fartura, graças a essa lei de herança, e recebendo da sociedade a educação, a instrução e todos os meios materiais e intelectuais, políticos e sociais para continuar essa obra de exploração. A outra porção abarcará as massas populares, todos esses milhões de trabalhadores que não herdam senão a miséria e a ignorância forçada de seus pais, e que se verão eternamente condenadas a um trabalho excessivo que, mal lhes dando do que viver, aumentará o bem-estar, o luxo e a civilização dos burgueses.

No lugar da propriedade individual, queremos a propriedade coletiva, e no lugar dos Estados, a organização cada vez mais universal da sociedade humana, pela federação livre das associações produtivas, industriais e agrícolas. No lugar de uma organização social fundada no privilégio e na política dos Estados, queremos uma organização que não terá outra base senão o trabalho, senão a justa e fraternal repartição de todos os produtos do trabalho.

Em seguida, o cidadão Bakunin fala da Associação Internacional dos Trabalhadores.

Essa Associação, nascida há apenas quatro anos, já se tornou uma grande força, reconhecida como tal por todos os políticos da Europa. Ao formar-se, ela havia propositalmente eliminado de seu programa todas as questões políticas, deixando a política – essa manifestação da vida dos Estados, aos privilegiados dos Estados – aos burgueses. Quanto a ela, colocou-se, de início, um único objetivo: a Emancipação dos trabalhadores de todos os países do jugo do capital.

Uma longa e dura experiência havia demonstrado aos fundadores da Associação que esse objetivo não podia ser alcançado senão pelos esforços combinados, pela aliança e pela solidariedade dos trabalhadores de todos os países; a ciência econômica veio, por sua vez, confirmá-los nessa convicção, demonstrando-lhes a universalidade da questão social, que nenhum país, por mais avançado e mais extenso que seja, poderia resolver sozinho, porque enquanto a concorrência dos Estados existir, haverá concorrência necessária e permanente entre as classes e os indivíduos; mas essa concorrência é a guerra, é a exploração e a opressão mútuas.

A Associação Internacional, consciente e voluntariamente estranha a toda política, deu, portanto, um único passo, fez um único ato com vistas à grande questão da emancipação de todos os trabalhadores no mundo. Mas esse ato e esse passo são imensos; eles contêm toda a revolução.

Ao proclamar o direito dos trabalhadores à exploração solidária de todos os capitais produzidos pelo trabalho acumulado das gerações passadas, ela proclamou a destituição, não do capital, mas da monopolização do capital – a destituição da propriedade individual, do direito de herança, isto é, do direito hereditário da exploração do trabalho alheio – ela proclamou a propriedade coletiva.

Ao proclamar a solidariedade dos trabalhadores de todos os países, ela atacou as fronteiras e começou a destruição dos Estados. Ela matou o patriotismo, essa paixão, essa virtude interesseira dos burgueses.

Pelo próprio fato de sua organização e de sua existência, ela aboliu, renegou a existência de todas essas inumeráveis pátrias que, do ponto de vista da política aristotélica e burguesa, dividem ainda hoje a Europa e o mundo, de sorte que, para os trabalhadores, só restam agora dois países estrangeiros no mundo, duas pátrias que, divididas por seus princípios, suas aspirações e seus interesses, logo se farão uma guerra mortal: uma chama-se capital, propriedade individual, monopólio, exploração, opressão – em resumo, reação; a outra, trabalho, direito humano, liberdade de todos pela igualdade de todos, justiça e fraternidade – a Revolução.

Não é isso, cidadãos, o que chamamos de questão social? Não é isso o princípio que deve assegurar o triunfo da república democrática e social?

Eis, após a condenação de toda política burguesa, a verdadeira, a única política da Associação Internacional dos Trabalhadores.

Assim, ao mesmo tempo que se declarou estranha à nossa política, essa grande associação realizou o mais importante ato e fato político de nossos dias. Ela inaugurou a política do povo: aquela da negação da propriedade individualmente hereditária e da destruição dos Estados.

Retorno a Baudin. Era um bravo cidadão. Morreu como só os heróis morrem, sem esperança de triunfo, mas fiel até ao último momento à sua fé. Ele foi buscar a morte após ter tentado em vão sublevar o povo contra os massacradores de dezembro.

Os operários não quiseram segui-lo. Eles erraram, tiveram razão? Pois bem, cidadãos, penso que eles erraram e acertaram simultaneamente.

Eles tiveram razão contra essa assembleia reacionária que Napoleão, por seu golpe de Estado, havia dissolvido. Pois não se deve falar sempre das vítimas de dezembro – falemos também daquelas de junho.

Aqui, sobretudo, no meio dessa assembleia completamente popular, não devemos esquecer essas vítimas da causa do povo, esses milhares de bravos operários que foram massacrados pelas guardas nacionais burguesas, porque reivindicaram o direito popular – os meios da vida e da liberdade popular. A ferocidade burguesa de junho preparou a ferocidade pretoriana de dezembro. Cavaignac foi o precursor de Napoleão.

Pois bem, essa assembleia nacional, que se chamava, então, assembleia constituinte, após os massacres de junho, acolheu o General Cavaignac como o salvador da civilização, isto é, da burguesia, como seu salvador; ela amaldiçoou e caluniou as vítimas e coroou de louros o carrasco. Depois de todas essas medidas, todas as leis que ela promulgou tiveram um único objetivo: aquele de destruir uma a uma todas as liberdades que o povo havia conquistado em fevereiro. Eis por que os operários, por sua vez, tiveram razão, mil vezes razão, de não se sublevar para a conservação dessa assembleia reacionária e burguesa tanto quanto para a república completamente reacionária e burguesa criada por essa assembleia.

Mas se os operários tiveram razão em relação a ela, eles erraram mil vezes em relação a eles próprios. Eles devem sublevar-se contra o tirano, não em nome da república burguesa, mas em nome da república democrática e social, em nome da vida, do pão e da liberdade populares. Pois não há mais monstruosa ilusão, nem mais monstruosa aliança do que aquela do povo dos trabalhadores com a ditadura, qualquer que seja, mas sobretudo com a ditadura militar.

Dezessete anos de opressão e aviltamento demonstraram essa verdade elementar ao povo. Ele não buscará mais sua salvação no poder de um charlatão coroado, nem de um criminoso feliz. Ele logo destruirá, espero-o, a força dos fuzis, das baionetas e do sabre. Mas os destruirá não para os burgueses, mas para ele próprio.

A organização internacional

Mikhail Bakunin

As massas são o poder social, ou, pelo menos, a essência desse poder. Mas faltam-lhes duas coisas para se libertarem das condições odiosas que as oprimem: educação e organização. Essas duas coisas representam: hoje, os verdadeiros fundamentos do poder de todo governo.

Para abolir o poder militar e governante do Estado, o proletariado deve se organizar. Mas como a organização não pode existir sem conhecimento, é necessário espalhar entre as massas a educação social real.

Espalhar essa educação social real é o objetivo da Internacional. Consequentemente, no dia em que a internacional conseguir unir em suas fileiras metade, um quarto ou mesmo um décimo dils trabalhadores da Europa, o Estado ou Estados deixarão de existir. A organização da Internacional será completamente diferente da organização Estatal, pois seu objetivo não é criar novos Estados, mas destruir todos os sistemas de governo existentes. Quanto mais artificial, brutal e autoritário for o poder do Estado, mais indiferente e hostil ele for aos desenvolvimentos naturais, interesses e desejos do povo, mais livre e natural deve ser a organização da Internacional. Ela deve tentar se acomodar ainda mais aos instintos naturais e ideais do povo.

Mas o que queremos dizer com organização natural das massas? Queremos dizer uma organização que é fundada na experiência e resultados da vida cotidiana e na diferença de seus trabalhos, ou seja, sua organização industrial. No momento em que todos os ramos da indústria estiverem representados em sua Internacional, a organização das massas será completa.

Mas pode-se dizer que se nós, a Internacional, passarmos a existir com influência organizada sobre as massas: nós estaríamos visando um novo poder igualmente com os políticos dos antigos sistemas estatais. Essa mudança é um grande erro. As influência da Internacional sobre as massas difere de todo poder governamental, pois não são mais do que uma influência natural e não oficial de ideias comuns, sem autoridade.

O Estado é a autoridade, seu domínio e o poder organizado da classe proprietária e dos especialistas de faz-de-conta sobre a vida e a liberdade das massas. O Estado não quer nada além da servidão das massas. Logo, exige sua submissão.

A Internacional, por outro lado, não tem outro objetivo senão a liberdade absoluta das massas. Consequentemente, apela ao instinto rebelde. Para que esse instinto rebelde seja forte e poderoso o suficiente para derrubar o domínio do Estado e da classe privilegiada, a Internacional deve se organizar.

Para atingir esse objetivo, ela tem que empregar duas armas bastante justas:

1. A propagação de suas ideias.

2. A organização natural de seu poder ou autoridade, através da influência de sues adeptes sobre as massas.

Uma pessoa que afirmar que a atividade organizada é um ataque à liberdade das massas, ou uma tentativa de criar uma nova regra, é sofista ou tola. É triste o suficiente para aqueles que não conhecem as regras da solidariedade humana, pensar que a independência individual completa é possível, ou desejável. Tal condição significaria a dissolução de toda a sociedade humana, uma vez que toda a existência social do homem depende da interdependência dos indivíduos e das massas. Cada pessoa, mesmo a mais inteligente e forte – não, especialmente a inteligente e forte – é em todos os momentos, as criaturas como também os criadores desta influência. A liberdade de cada indivíduo é o resultado direto dessas influências materiais, mentais e morais, de todos os indivíduos que o cercam naquela sociedade em que ele vive, se desenvolve e morre. Uma pessoa que busca se libertar dessa influência em nome de uma “liberdade” metafísica, sobre-humana e perfeitamente egoísta visa seu próprio extermínio como ser humano. E aquelus que se recusam a usar essa influência sobre os outros, retiram-se de toda atividade da vida social e, ao não transmitir seus pensamentos e sentimentos, trabalham para sua própria destruição. Portanto, essa chamada “independência”, que é pregada com tanta frequência pelos idealistas e metafísicos: essa chamada liberdade individual é apenas a destruição da existência.

Na natureza, assim como na sociedade humana, que nunca é nada além de parte dessa mesma natureza, toda criatura existe sob a condição de que tente, tanto quanto sua individualidade permitir, influenciar a vida dos outros. A destruição dessa influência indireta significaria a morte. E quando desejamos a liberdade das massas, não queremos de forma alguma destruir essa influência natural, que indivíduos ou grupos de indivíduos criam por meio de seu próprio contrato.

O que buscamos é a abolição da influência artificial, privilegiada, legal e oficial. Se a Igreja e o Estado fossem instituições privadas, deveríamos ser, mesmo então, suponho que sues oponentes. Não deveríamos ter protestado contra seu direito de existir. É verdade, em certo sentido, eles são, hoje, instituições privadas, pois existem exclusivamente para conservar os interesses das classes privilegiadas. Ainda assim, nos opomos a eles, porque eles usam todo o poder das massas para forçar seu governo sobre as últimas de uma maneira autoritária, oficial e brutal. Se a Internacional pudesse ter se organizado da maneira do Estado, nós, sues amigues mais entusiasmades, teríamos nos tornado sues inimigues mais ferrenhes. Mas ela não pode se organizar dessa forma. A Internacional não pode reconhecer limites à camaradagem humana e, enquanto o Estado não pode existir a menos que limite, por pretensões territoriais, tal camaradagem e igualdade. A história nos mostrou que a realização de uma liga de todos os Estados do mundo, com a qual todos os déspotas sonharam, é impossível. Portanto, aqueles que falam do Estado, necessariamente pensam e falam de um mundo dividido em diferentes Estados, que são internamente opressores e externamente espoliadores, ou seja, inimigos uns dos outros. O Estado, já que envolve esta divisão, opressão e espoliação da humanidade, representa a negação da humanidade e a destruição da sociedade humana.

Não haveria sentido algum na organização dils trabalhadores, se elus não tivessem como objetivo a derrubada do Estado. A Internacional organiza as massas com esse objetivo em vista, para que elas possam se lembrar desse objetivo. Mas como ela as organiza?

Não de cima para baixo, impondo uma unidade e ordem aparentes na sociedade humana, como o estado tenta, sem considerar as diferenças de interesse decorrentes das diferenças de trabalho. Pelo contrário, a Internacional organiza as massas de baixo para cima, tomando a vida social das massas, suas aspirações reais como ponto de partida, e encorajando-as a se unirem em grupos de acordo com seus interesses reais na sociedade. A Internacional desenvolve uma unidade de propósito e cria um equilíbrio real de objetivo e bem-estar a partir de sua diferença natural na vida e trabalho.

Só porque a Internacional é organizada dessa forma, ela desenvolve um poder real. Portanto, é essencial que cada membre de cada grupo esteja familiarizade completamente com todos os seus princípios. Somente por esses meios elu será ume boe propagandista em tempos de paz e ume verdadeire revolucionárie em tempos de guerra.

Todes nós sabemos que nosso programa é justo. Ele expressa em poucas palavras nobres as demandas justas e humanas do proletariado. Só porque é um programa absolutamente humano, ele contém todos os sintomas da revolução social. Ela proclama a destruição do velho e a criação do novo mundo.

Este é o ponto principal que devemos explicar a todes ils membres da Internacional. Este programa substitui uma nova ciência, uma nova filosofia pela velha religião. E define uma nova política internacional, no lugar da velha diplomacia. Não tem outro objetivo senão a derrubada dos Estados.

Para que ils membres da Internacional preencham cientificamente seus postos, como propagandistas revolucionáries, é necessário que todes sejam imbuídos da nova ciência, filosofia e política: o novo espírito da Internacional. Não basta declarar que queremos a liberdade econômica dils trabalhadores, um retorno total para nosso trabalho, a abolição das classes, o fim da escravidão política, a realização de direitos humanos nulos, deveres iguais e justiça para todes: em uma frase, a unidade da humanidade. Tudo isso é, sem dúvida, muito bom e justo. Mas quando ils trabalhadores da Internacional simplesmente continuam repetindo essas frases, sem compreender sua verdade e significado, elus têm que enfrentar o perigo de reduzir suas justas reivindicações a palavras vazias, hipocrisia que não é nada sem compreensão.

Pode-se responder que nem todes ils trabalhadores, mesmo quando são membres da Internacional, podem ser educades. Não basta, então, que haja na organização um grupo de pessoas que — na medida do possível — se familiarizem novamente com a ciência, filosofia e política do Socialismo? Não pode a grande massa seguir seu “conselho fraternal” para não se desviar do caminho certo, que leva, em última análise, à liberdade do proletariado?

Os comunistas autoritários na Internacional frequentemente fazem uso desses argumentos, embora tenham desejado a coragem de declará-los tão livre e claramente. Elus procuraram esconder sua opinião real sob elogios demagógicos sobre a inteligência e onipotência do povo. Sempre fomos ils inimigues mais amargues dessa opinião. E estamos convencides de que, se a Internacional se dividisse em dois grupos – uma grande maioria e uma pequena minoria de toneladas, vinte ou mais pessoas – de tal forma que a maioria fosse cegamente convencida do sentido teórico e prático da minoria, o resultado seria a redução da Internacional a uma oligarquia – a pior forma de Estado. A minoria educada e capaz exigiria, junto com suas responsabilidades, os direitos de um corpo governante. E esse corpo governante se mostraria mais despótico do que uma autocracia declarada, porque estaria escondido sob uma demonstração de respeito servil pela vontade do povo. A minoria governaria por meio de resoluções, impostas ao povo e, posteriormente, chamadas de “a vontade do povo”. Dessa forma, a minoria educada se desenvolveria em um governo que, como todos os outros governos, se tornaria cada dia mais despótico e reacionário.

A Internacional só pode se tornar uma arma para libertar o povo, quando se liberta; quando não se permite ser dividida em dois grupos – uma grande maioria, a ferramenta cega de uma minoria educada. É por isso que seu primeiro dever é imprimir nas mentes de sues membres a ciência, a filosofia e a política do Socialismo.

Com a FACA entre os dentes: 2026 será o ano da virada organizada!

Saudações, companheiros e companheiras! Que 2026 nos encontre com as trincheiras abertas e a disposição de luta mais afiada do que nunca. Enquanto o sistema enterra seus mortos e agoniza em mais uma crise, nós, da Federação Anarquista Capixaba (FACA), saudamos o novo ano não com a expectativa por reformas ou mudanças vindas de cima, mas com a certeza de que a nossa liberdade será construída pelos nossos punhos, dia após dia. Que este seja o ano de aprofundarmos as raízes da autonomia no chão capixaba, transformando cada bairro, cada escola, cada local de trabalho em um território livre da exploração patronal e da tutela estatal. A miséria do capital não tira férias, e por isso nossas lutas também não terão descanso!

A história já nos mostrou que a rebeldia individual, por mais corajosa que seja, não é suficiente para derrubar os pilares da opressão. É por isso que a FACA reafirma seu compromisso inegociável com a organização séria e duradoura. Não somos um mero agrupamento espontâneo; somos uma organização forjada na luta de classes, estruturada para atacar o sistema em suas múltiplas frentes. Sabemos que, para liquidar o capitalismo e o Estado, é preciso disciplina, tática e visão estratégica. A construção do poder popular não se faz com improvisos, mas com a teimosia organizada de quem sabe que a vitória exige constância e dedicação total. Contra a fragmentação que o sistema nos impõe, respondemos com a força do coletivo!

Mas a luta não pode se limitar aos nossos quintais. O inimigo é global e organizado em redes de exploração e dominação, portanto, nossa resistência também deve ser internacionalista e coordenada. Por isso, a FACA está orgulhosamente filiada à União Anarquista Federalista (UAF), construindo a unidade tática e estratégica com nossos irmãos e irmãs de luta em todo o Brasil. E, através da UAF, nos somamos à Internacional de Federações Anarquistas (IFA), tecendo os fios da rebeldia que conectam os continentes. Do movimento operário na Europa às lutas territoriais na América Latina, passando pelas resistências antifascistas em todos os cantos, a IFA é a prova viva de que o anarquismo é uma força global, coordenada e preparada para dar o bote.

Que 2026 seja, portanto, o ano da virada. Um ano em que a coordenação entre as forças anarquistas se converta em ofensiva direta contra o capital. A FACA segue de pé, com a faca entre os dentes, pronta para sabotar os engrenagens da exploração e construir, desde já, o mundo novo no casco velho da sociedade. Convidamos todos os inconformados e inconformadas a abandonarem a ilusão da passividade e a se juntarem à luta organizada. A hora é agora, a força é nossa e a vitória será de quem não pede licença para ser livre! Avante que o amanhã não espera! Pela UAF e pela IFA, até a completa destruição deste mundo de misérias!

Federação Anarquista Capixaba – FACA

Do DOI-CODI à Favela: O Estado Genocida e Sua Nova Máscara

Dada a conjuntura atual, mais do que nunca, é necessário que abramos os olhos e rompamos o véu enganoso da “redemocratização” no território dominado pelo Estado Brasileiro! Eles nos vendem a farsa de que a ditadura militar acabou, mas nós, das ruas e das lutas sociais, sabemos a verdade sangrenta: o monstro apenas trocou de pele. Torturas, prisões, sequestros, assassinatos, delação, censura – os mesmos instrumentos de terror que assombraram o Brasil sob os gorilas fardados continuam a ser a política de Estado contra os pobres, os negros, os indígenas e os militantes. A pergunta que ecoa das favelas aos quilombos é: a ditadura realmente acabou ou apenas mudou de nome?

Eles trocaram os porões do DOI-CODI pelas operações de “Garantia da Lei e da Ordem” nas periferias. A tortura saiu dos quartéis e se instalou nas abordagens policiais, nas violações de autos de resistência, nas humilhações cotidianas do sistema prisional. O sequestro de corpos negros segue uma lógica industrial, seja no extermínio pela polícia, seja no encarceramento em massa que arranca milhares de suas comunidades. O método é o mesmo: o terror como ferramenta de controle social e a aniquilação daqueles que o sistema marca como indesejáveis.

O aparato de perseguição política foi modernizado e recebeu roupagem “legal”. As prisões preventivas, as delações premiadas coagidas e a criminalização dos movimentos sociais são as novas facetas do arbítrio. A Lei de Segurança Nacional, herança maldita da ditadura, é brandida contra quem ousa criticar os poderosos. Eles não precisam mais de AI-5 quando têm um Judiciário conivente e uma mídia mercenária que legitima a perseguição, construindo narrativas que transformam militantes em “terroristas” e protestos em “atos de guerra”.

A censura não morreu; tornou-se digital, algorítmica e estrutural. Ela se disfarça de “política de comunidade” nas redes sociais, de “combate à desinformação” que silencia vozes dissidentes, e da monopolização midiática que mantém o povo intoxicado pela ignorância. A violência do Estado agora é transmitida ao vivo, mas a mesma máquina que a exibe tenta justificá-la como “necessária”. O genocídio negro, o etnocídio indígena e a repressão aos pobres são a prova viva de que o Estado brasileiro mantém sua essência autoritária.

E a farsa eleitoral? Trocar os generais por políticos profissionais não altera a natureza do Estado. Enquanto o poder permanecer nas mãos das elites econômicas, das corporações militares e de um Judiciário de exceção, a democracia seguirá sendo uma piada de mau gosto. O mesmo sistema que financiou a ditadura segue no poder, renovando sua maquiagem a cada pleito para preservar seus privilégios. A “Nova República” não passou de um pacto de elites para manter o povo sob jugo, agora com métodos mais “sofisticados” de repressão.

Portanto, a resposta é clara: a ditadura nunca acabou, apenas se recombinou. Ela agora é civil, militar, jurídica e midiática. Mas nossa resistência também se reinventa. Não depositaremos fé em salvadores da pátria ou nas instituições podres desse Estado genocida. Nossa luta é pelo fim da polícia, dos exércitos, pelo fim do sistema prisional, pelo fim da justiça de classe e por uma verdadeira desagregação desse Estado assassino (e de seu irmão, o Capital). A memória dos torturados e assassinados nos grita: não passarão! Pela liberdade de todos e pelo fim de TODAS as ditaduras, ação direta e luta nas ruas!

Pela anarquia.

Liberto Herrera.

English Translation:

From the DOI-CODI to the Favela: The Genocidal State and Its New Mask

Given the current situation, more than ever, it is necessary that we open our eyes and tear away the deceptive veil of “re-democratization” in the territory dominated by the Brazilian State! They sell us the farce that the military dictatorship ended, but we, from the streets and from social struggles, know the bloody truth: the monster merely changed its skin. Torture, arrests, kidnappings, assassinations, informing, censorship – the same instruments of terror that haunted Brazil under the uniformed gorillas continue to be state policy against the poor, the Black, the Indigenous, and the militants. The question that echoes from the favelas to the quilombos is: did the dictatorship really end, or did it just change its name?

They exchanged the basements of the DOI-CODI for the “Guarantee of Law and Order” operations in the peripheries. Torture left the barracks and installed itself in police stops, in the violations of autos de resistência (resistance records), in the daily humiliations of the prison system. The kidnapping of Black bodies follows an industrial logic, whether in police extermination or in mass incarceration that tears thousands from their communities. The method is the same: terror as a tool of social control and the annihilation of those whom the system marks as undesirable.

The apparatus of political persecution has been modernized and given a “legal” guise. Preventive arrests, coerced plea bargains, and the criminalization of social movements are the new facets of arbitrariness. The National Security Law, a cursed legacy of the dictatorship, is wielded against those who dare to criticize the powerful. They no longer need an AI-5 when they have a complicit Judiciary and a mercenary media that legitimizes the persecution, constructing narratives that turn militants into “terrorists” and protests into “acts of war.”

Censorship did not die; it became digital, algorithmic, and structural. It disguises itself as “community policy” on social networks, as “fighting disinformation” that silences dissenting voices, and as media monopolization that keeps the people intoxicated by ignorance. The violence of the State is now broadcast live, but the same machine that displays it tries to justify it as “necessary.” The Black genocide, the Indigenous ethnocide, and the repression of the poor are living proof that the Brazilian state maintains its authoritarian essence.

And the electoral farce? Swapping generals for professional politicians does not change the nature of the State. As long as power remains in the hands of economic elites, military corporations, and an exceptionalist Judiciary, democracy will remain a bad joke. The same system that financed the dictatorship remains in power, renewing its makeup with each election to preserve its privileges. The “New Republic” was nothing but a pact among elites to keep the people under yoke, now with more “sophisticated” methods of repression.

Therefore, the answer is clear: the dictatorship never ended; it merely recombined. It is now civil, military, judicial, and media-based. But our resistance also reinvents itself. We will not place our faith in saviors of the motherland or in the rotten institutions of this genocidal state. Our struggle is for the end of the police, the armies, the end of the prison system, the end of class-based justice, and for the true disintegration of this murderous State (and its brother, Capital). The memory of the tortured and the murdered shouts to us: they shall not pass! For the freedom of all and for the end of ALL dictatorships, direct action and struggle in the streets!

For anarchy.
Liberto Herrera.


Traducción al Español:

Del DOI-CODI a la Favela: El Estado Genocida y Su Nueva Máscara

Dada la coyuntura actual, más que nunca, es necesario que abramos los ojos y rompamos el velo engañoso de la “redemocratización” en el territorio dominado por el Estado Brasileño. Nos venden la farsa de que la dictadura militar terminó, pero nosotros, desde las calles y las luchas sociales, conocemos la sangrienta verdad: el monstruo sólo cambió de piel. Torturas, arrestos, secuestros, asesinatos, delación, censura – los mismos instrumentos de terror que asolaron Brasil bajo los gorilas uniformados continúan siendo la política de Estado contra los pobres, los negros, los indígenas y los militantes. La pregunta que resuena desde las favelas hasta los quilombos es: ¿realmente acabó la dictadura o simplemente cambió de nombre?

Cambiaron los sótanos del DOI-CODI por las operaciones de “Garantía de la Ley y el Orden” en las periferias. La tortura salió de los cuarteles y se instaló en las detenciones policiales, en las violaciones de los autos de resistencia, en las humillaciones cotidianas del sistema carcelario. El secuestro de cuerpos negros sigue una lógica industrial, ya sea en el exterminio policial, ya sea en el encarcelamiento masivo que arranca a miles de sus comunidades. El método es el mismo: el terror como herramienta de control social y la aniquilación de aquellos que el sistema marca como indeseables.

El aparato de persecución política se ha modernizado y ha recibido un ropaje “legal”. Las detenciones preventivas, las delaciones premiadas coaccionadas y la criminalización de los movimientos sociales son las nuevas facetas del arbitrio. La Ley de Seguridad Nacional, herencia maldita de la dictadura, es blandida contra quien se atreve a criticar a los poderosos. Ya no necesitan un AI-5 cuando tienen un Poder Judicial cómplice y unos medios mercenarios que legitiman la persecución, construyendo narrativas que convierten a militantes en “terroristas” y a protestas en “actos de guerra”.

La censura no murió; se volvió digital, algorítmica y estructural. Se disfraza de “política de comunidad” en las redes sociales, de “combate a la desinformación” que silencia voces disidentes, y del monopolio mediático que mantiene al pueblo intoxicado por la ignorancia. La violencia del Estado ahora se transmite en vivo, pero la misma máquina que la exhibe intenta justificarla como “necesaria”. El genocidio negro, el etnocidio indígena y la represión a los pobres son la prueba viva de que el Estado brasileño mantiene su esencia autoritaria.

¿Y la farsa electoral? Cambiar a los generales por políticos profesionales no altera la naturaleza del Estado. Mientras el poder permanezca en manos de las élites económicas, de las corporaciones militares y de un Poder Judicial de excepción, la democracia seguirá siendo una broma de mal gusto. El mismo sistema que financió la dictadura sigue en el poder, renovando su maquillaje en cada elección para preservar sus privilegios. La “Nueva República” no fue más que un pacto de élites para mantener al pueblo bajo yugo, ahora con métodos más “sofisticados” de represión.

Por lo tanto, la respuesta es clara: la dictadura nunca terminó, sólo se recombinó. Ahora es civil, militar, judicial y mediática. Pero nuestra resistencia también se reinventa. No depositaremos fe en salvadores de la patria ni en las instituciones podridas de este Estado genocida. Nuestra lucha es por el fin de la policía, de los ejércitos, por el fin del sistema carcelario, por el fin de la justicia de clase y por la verdadera desagregación de este Estado asesino (y de su hermano, el Capital). La memoria de los torturados y asesinados nos grita: ¡no pasarán! Por la libertad de todos y por el fin de TODAS las dictaduras, ¡acción directa y lucha en las calles!

Por la anarquía.
Liberto Herrera.

A Cortina de Fumaça das ONGs: O Assistencialismo como Braço do Capital e do Estado

Camaradas, a realidade que nossa militância enfrenta no Espírito Santo é absurda: proliferam-se por nossos territórios organizações não governamentais que, longe de serem espaços de libertação, atuam como agentes de domesticação. São, em sua maioria, extensões camufladas de partidos políticos e igrejas, estruturas que não buscam a transformação radical da sociedade, mas sim a perpetuação de um sistema de dominação. É preciso denunciar com vigor: as ONGs, principalmente estas vinculadas, são parte orgânica do capitalismo e não nos salvarão de suas garras. Pelo contrário, são engrenagens que lubrificam a máquina da opressão.

Observemos as ONGs atreladas a partidos políticos. Sua existência é cíclica e eleitoreira. Surgem como braços “sociais” de legendas que almejam o controle do Estado, oferecendo migalhas assistencialistas em troca de lealdade futura nas urnas. Sua ação não fortalece a autonomia do povo, mas cria uma relação de dependência clientelista. Elas precisam do Estado, seja através de editais públicos, verbas parlamentares ou convênios, recursos esses que são usados para ampliar a base de influência do partido. São, portanto, instrumentos para acessar o poder estatal e, consequentemente, gerir os mecanismos do capital. Lutam por uma fatia do bolo, jamais pela destruição do forno que cozinha a miséria.

Da mesma forma, as ONGs vinculadas a igrejas operam uma colonização mais profunda, misturando caridade com proselitismo. Utilizam a fome e a vulnerabilidade para impor uma moral religiosa e expandir seu rebanho. Sua ajuda é condicional, um embrulho para a doutrinação, que visa pacificar os oprimidos com a promessa de recompensa celestial, anestesiando a revolta terrena necessária. Estas organizações também dependem do Capital, seja através de doações de grandes corporações que buscam lavar sua imagem, seja de recursos públicos obtidos por sua enorme influência política. São o braço “social” do capitalismo teológico, que converte a necessidade material em controle espiritual.

A conjuntura é clara: estas ONGs não existem à margem do sistema. Elas são funcionais a ele. O capitalismo, em sua fase neoliberal, terceiriza para elas o papel de amortecer os impactos mais brutais da exploração, um paliativo que evita a explosão social. O Estado, por sua vez, as financia e regula, cooptando potenciais focos de resistência e transformando demandas por direitos em projetos gerenciáveis. São uma válvula de escape, uma forma de gerenciar a pobreza sem alterar as estruturas que a produzem. Enquanto distribuem cestas básicas, silenciam sobre a propriedade privada dos meios de produção.

Nós, da Federação Anarquista Capixaba, rejeitamos esta cortina de fumaça. Nossa luta não é por mais ONGs, mas por organização popular autônoma, direta e de base. Acreditamos na ação direta, na ajuda mútua desinteressada, na construção de realidades que confrontem o poder, desde baixo, sem mediadores, sem patrões e sem sacerdotes. Construímos comedores comunitários autogeridos, hortas coletivas, grupos de defesa territorial e círculos de estudo sem vínculo com editais ou interesses eleitorais. Nossa solidariedade é de classe, não é esmola nem investimento.

Portanto, desmascaremos essas entidades que, vestidas com o manto da bondade, fortalecem as correntes que nos aprisionam. Não depositemos nossa esperança em salvadores institucionais. Nossa libertação não virá de cima, nem de projetos aprovados no gabinete de um político ou na cúria de uma igreja. Virá da nossa própria capacidade de nos organizarmos, horizontalmente, combatendo o Estado, o Capital e todas as suas faces, inclusive as mais “beneméritas”. A verdadeira transformação social nasce da autonomia, do apoio mútuo e da luta intransigente contra todas as formas de dominação. Fora do povo organizado, não há salvação!

Federação Anarquista Capixaba – FACA

Para Além do Estado e do Capital: A Urgência dos Sonhos por Inteiro!

Camaradas, nós, anarquistas, erguemos nossa voz contra a tirania de todos os senhores e contra a mediocridade de todas as revoluções parciais. Rejeitamos com todo o nosso ímpeto a vã promessa dos marxistas, leninistas, estatistas, capitalistas, etc, que nos oferecem meras migalhas de emancipação em troca de nossa submissão a um novo mestre: o Estado. Seja na versão burocrática da “ditadura do proletariado”, seja na falácia reformista do capitalismo regulado, todos eles pregam a mesma heresia: a de que a liberdade pode ser administrada, parcelada e distribuída por um poder central. Nós rasgamos esse contrato de escravidão! Não queremos os sonhos parcelados desses traficantes de ilusões. QUEREMOS SONHOS POR INTEIRO!

Esses “sonhos parcelados” são uma armadilha perversa. Os marxistas-leninistas prometem um futuro comunista, mas seu método é a conquista do aparelho estatal, a criação de uma nova classe de burocratas e a perpetuação da lógica do poder. Eles trocam o patrão privado pelo patrão estatal, a exploração capitalista pela exploração estatal. O seu sonho é um pesadelo autoritário, onde a liberdade individual é esmagada em nome de um coletivo forjado pela coerção. O Estado, em qualquer forma que se apresente, é inimigo da autogestão e da livre associação. É a negação da revolução social, pois substitui a iniciativa direta do povo pelo decreto de uma minoria que se julga iluminada.

Da mesma forma, o capitalismo, em sua fase mais selvagem ou em sua máscara social-democrata, só nos oferece o sonho parcelado do consumidor. Ele nos vende a ilusão de liberdade através da posse de mercadorias, enquanto nos rouba a autonomia real sobre nossas vidas e nosso trabalho. O seu “sonho” é um pesadelo de alienação, onde nos tornamos apêndices da máquina de produção e consumidores de nossa própria miséria. O capital e o Estado são as duas faces da mesma moeda opressora; um não pode existir sem o outro. O Estado garante a propriedade privada dos meios de produção e a hierarquia social, enquanto o capital sustenta o poder econômico que alimenta o aparato estatal.

Portanto, nossa luta não é por um Estado “melhor” ou por um capitalismo “mais justo”. Nossa luta é pela abolição pura e simples de ambos! QUEREMOS SONHOS POR INTEIRO: sonhos de uma sociedade onde a autogestão seja o princípio organizador de baixo para cima; onde as comunidades livres federem-se voluntariamente; onde o trabalho seja uma atividade criativa e não uma condenação; e onde a solidariedade substitua a competição. Queremos a materialização de um mundo novo, onde cada indivíduo seja senhor de seu próprio destino, cooperando livremente com seus iguais, sem a sombra opressora de governos, polícia, exércitos ou patrões.

O caminho para este mundo não passa pelas urnas do Estado ou pela tomada de seu palácio. Passa pela ação direta, pela organização horizontal, pelo apoio mútuo e pela construção aqui e agora, nas entranhas da velha sociedade, dos embriões do mundo novo. É na greve selvagem, na comuna autônoma, no coletivo de produção, na ocupação e em toda forma de resistência que negamos o poder e afirmamos a vida. Não pedimos permissão para ser livres. Tomamos nossa liberdade com nossas próprias mãos. A nós, anarquistas, cabe a tarefa gloriosa de sonhar o impossível para conquistar o real: um mundo sem Estado e sem capital. À ação, pois! Pela revolução social e pela liberdade total

Liberto Herrera.

English Translation:

Beyond the State and Capital: The Urgency of Whole Dreams!

Comrades, we anarchists raise our voices against the tyranny of all masters and against the mediocrity of all partial revolutions. With all our impetus, we reject the vain promise of Marxists, Leninists, statists, capitalists, etc., who offer us mere crumbs of emancipation in exchange for our submission to a new master: the State. Whether in the bureaucratic version of the “dictatorship of the proletariat” or in the reformist fallacy of regulated capitalism, they all preach the same heresy: that freedom can be administered, parceled out, and distributed by a central power. We tear up this contract of slavery! We do not want the partial dreams of these traffickers of illusions. WE WANT WHOLE DREAMS!

These “partial dreams” are a perverse trap. The Marxist-Leninists promise a communist future, but their method is the conquest of the state apparatus, the creation of a new class of bureaucrats, and the perpetuation of the logic of power. They exchange the private boss for the state boss, capitalist exploitation for state exploitation. Their dream is an authoritarian nightmare, where individual freedom is crushed in the name of a collective forged by coercion. The State, in whatever form it presents itself, is the enemy of self-management and free association. It is the negation of social revolution, for it replaces the direct initiative of the people with the decree of a minority that considers itself enlightened.

In the same way, capitalism, in its most savage phase or in its social-democratic mask, only offers us the partial dream of the consumer. It sells us the illusion of freedom through the possession of commodities, while it steals from us real autonomy over our lives and our work. Its “dream” is a nightmare of alienation, where we become appendages of the production machine and consumers of our own misery. Capital and the State are the two sides of the same oppressive coin; one cannot exist without the other. The State guarantees the private property of the means of production and the social hierarchy, while capital sustains the economic power that feeds the state apparatus.

Therefore, our struggle is not for a “better” State or for a “more just” capitalism. Our struggle is for the pure and simple abolition of both! WE WANT WHOLE DREAMS: dreams of a society where self-management is the organizing principle from the bottom up; where free communities federate voluntarily; where work is a creative activity and not a condemnation; and where solidarity replaces competition. We want the materialization of a new world, where every individual is master of their own destiny, cooperating freely with their equals, without the oppressive shadow of governments, police, armies, or bosses.

The path to this world does not pass through the State’s ballot boxes or the seizure of its palace. It passes through direct action, through horizontal organization, through mutual aid, and through building here and now, within the bowels of the old society, the embryos of the new world. It is in the wildcat strike, in the autonomous commune, in the production collective, in the occupation, and in every form of resistance that we deny power and affirm life. We do not ask for permission to be free. We take our freedom with our own hands. To us, anarchists, falls the glorious task of dreaming the impossible to conquer the real: a world without a State and without capital. To action, then! For the social revolution and for total freedom.

Liberto Herrera.

Al Español:

Más Allá del Estado y del Capital: ¡La Urgencia de los Sueños Enteros!

Camaradas, nosotros, los anarquistas, alzamos nuestra voz contra la tiranía de todos los amos y contra la mediocridad de todas las revoluciones parciales. Rechazamos con todo nuestro ímpetu la vana promesa de marxistas, leninistas, estatistas, capitalistas, etc., que nos ofrecen meras migajas de emancipación a cambio de nuestra sumisión a un nuevo amo: el Estado. Ya sea en la versión burocrática de la “dictadura del proletariado” o en la falacia reformista del capitalismo regulado, todos predican la misma herejía: que la libertad puede ser administrada, parcelada y distribuida por un poder central. ¡Rasgamos ese contrato de esclavitud! No queremos los sueños parcelados de esos traficantes de ilusiones. ¡QUEREMOS SUEÑOS ENTEROS!

Esos “sueños parcelados” son una trampa perversa. Los marxista-leninistas prometen un futuro comunista, pero su método es la conquista del aparato estatal, la creación de una nueva clase de burócratas y la perpetuación de la lógica del poder. Cambian al patrón privado por el patrón estatal, la explotación capitalista por la explotación estatal. Su sueño es una pesadilla autoritaria, donde la libertad individual es aplastada en nombre de un colectivo forjado por la coerción. El Estado, en cualquier forma que se presente, es enemigo de la autogestión y la libre asociación. Es la negación de la revolución social, pues sustituye la iniciativa directa del pueblo por el decreto de una minoría que se cree iluminada.

De la misma forma, el capitalismo, en su fase más salvaje o en su máscara socialdemócrata, sólo nos ofrece el sueño parcelado del consumidor. Nos vende la ilusión de libertad a través de la posesión de mercancías, mientras nos roba la autonomía real sobre nuestras vidas y nuestro trabajo. Su “sueño” es una pesadilla de alienación, donde nos convertimos en apéndices de la máquina de producción y consumidores de nuestra propia miseria. El Capital y el Estado son las dos caras de la misma moneda opresora; uno no puede existir sin el otro. El Estado garantiza la propiedad privada de los medios de producción y la jerarquía social, mientras el capital sustenta el poder económico que alimenta el aparato estatal.

Por lo tanto, nuestra lucha no es por un Estado “mejor” o por un capitalismo “más justo”. ¡Nuestra lucha es por la abolición pura y simple de ambos! QUEREMOS SUEÑOS ENTEROS: sueños de una sociedad donde la autogestión sea el principio organizador de abajo hacia arriba; donde las comunidades libres se federen voluntariamente; donde el trabajo sea una actividad creativa y no una condena; y donde la solidaridad reemplace a la competencia. Queremos la materialización de un mundo nuevo, donde cada individuo sea señor de su propio destino, cooperando libremente con sus iguales, sin la sombra opresora de gobiernos, policía, ejércitos o patrones.

El camino hacia este mundo no pasa por las urnas del Estado ni por la toma de su palacio. Pasa por la acción directa, por la organización horizontal, por el apoyo mutuo y por la construcción aquí y ahora, en las entrañas de la vieja sociedad, de los embriones del mundo nuevo. Es en la huelga salvaje, en la comuna autónoma, en el colectivo de producción, en la ocupación y en toda forma de resistencia donde negamos el poder y afirmamos la vida. No pedimos permiso para ser libres. Tomamos nuestra libertad con nuestras propias manos. A nosotros, los anarquistas, nos corresponde la tarea gloriosa de soñar lo imposible para conquistar lo real: un mundo sin Estado y sin capital. ¡A la acción, pues! Por la revolución social y por la libertad total.

Liberto Herrera.

PELA UNIÃO E ORGANIZAÇÃO ANARQUISTA: DA TEORIA À AÇÃO COMBATIVA!

Às companheiras, companheiros e companheires, àqueles que carregam no peito o fogo da liberdade e o ódio à opressão: saudações da Federação Anarquista Capixaba!

O atual momento histórico exige mais do que palavras indignadas; exige ação concertada e estratégia. Enquanto nos perdemos em discursos fragmentados e ações desconexas, o capital avança, internacional e articulado, pisoteando povos, ecossistemas e qualquer resquício de autonomia. Sua face é global, e nossa resposta, até agora, tem sido localista e insuficiente. É hora de entender que a luta contra o Leviatã Estatal e o vampiro do Capital não será vencida por atos de bravura isolados, mas pela construção de um movimento capaz de enfrentá-los em todas as frentes.

A dispersão é nosso maior inimigo interno. Enquanto nos contentamos com grupelhos fechados em suas próprias verdades ou ações simbólicas sem continuidade, o sistema ri e segue seu caminho de destruição. Romantizar a espontaneidade sem organização é um luxo que não podemos mais nos dar. Precisamos de uma união orgânica, fluida e combativa, que transcenda as afinidades pessoais e se estruture em torno de um programa e uma estratégia comum. Só uma organização específica anarquista, firmemente enraizada nas lutas populares, pode acumular forças, compartilhar experiências e projetar uma transformação social real e duradoura.

Não basta diagnosticar os males do mundo; é nossa obrigação mergulhar nas profundezas da conjuntura e dela extrair um plano de batalha realista. A análise não é um exercício acadêmico, mas a base para a ação eficaz. Devemos estudar minuciosamente as táticas do inimigo, identificar seus pontos fracos e, a partir daí, criar estratégias de ação que sejam ao mesmo tempo ousadas e exequíveis. Isso significa conectar nossa prática cotidiana – do apoio mútuo nas comunidades à greve no local de trabalho – com nosso horizonte estratégico de transformação social radical. É a ponte que nos tira do campo das ideias e nos lança ao combate direto.

O capital não conhece fronteiras, e nossa solidariedade também não pode conhecer. Nossa luta no Espírito Santo está intrinsecamente ligada à dos povos da Amazônia, dos trabalhadores da Europa, dos oprimidos do Sul global. A internacionalização da luta não é um slogan, mas uma necessidade de sobrevivência e vitória. Devemos construir canais de comunicação, apoio e ação direta com organizações irmãs em todo o mundo, compartilhando táticas, recursos e, acima de tudo, a convicção de que nenhum de nós é livre enquanto um de nós for escravo. Nossa rede deve ser tão global quanto a do capital, porém, fundada na liberdade e na cooperação, não na exploração.

Portanto, chamamos todas e todos que almejam um mundo verdadeiramente livre a superar a inércia e o sectarismo. Unamo-nos sob a bandeira negra e vermelha da Anarquia organizada! Vamos forjar na prática uma ferramenta de luta afiada, capaz de analisar, planejar e atacar. O inimigo é poderoso, mas nossa força reside no povo organizado. É hora de transformar nossa indignação em movimento, nossa teoria em ação combativa e nossa esperança em realidade. A luta é aqui, é agora e é até a vitória final!

PELA ANARQUIA!
FEDERAÇÃO ANARQUISTA CAPIXABA (FACA)